domingo, 16 de julho de 2017

DESFRAGMENTAÇÃO






Era, de novo, o engano jogado ao comprido dos pés. Aos caídos, andar por ali de costas voltadas para a porta da divisão onde tudo mexe, por si. Iniciava agora, o infindo levantamento de dimensões à sala dos incisivos. Se depositavam em rodapé, a pouca fé nesta estrutura e a caliça vinda dos dentes rilhados em noites de aperto. Morderam todo o isco, e de forma diferente a mesma coisa, quem por aqui passou e ficou ainda que por uma noite só. Por subtracção, assim se sustenta esta ciência sem enunciado. Dentes-muralha, domadores de carne precisa, imaculada construção do todo envolvente. Voltar atrás, nada a lembrar um caminho de antes, não fosse ter passado por ela, pela corda desnivelada deste mar preso ao chão. Isto é, lançar a confusão pelo corpo abaixo e nada lá em baixo por onde começar. Lancetar a parcela passiva, o torpor, ao que não perturba a coisa, sendo ou por vir, nem um pouco. Dispersa, a mão trata por igual qualquer peça de caça, qualquer peça de roupa dobrada para dentro da minha atenção ao comum circunscrito, de lados irregulares onde não ponho os pés vai para muito. Inverniço floreado, mais árvore ali plantada, impedindo o lado inteiro ao olhar. Se prende à frase, o espigão acabado de entrar no olhal. Terra-a-terra, sem metáfora associada. Se perde por desaparecer. Houve um longo suspiro, áspero e sedutor, de encontro ao sonho de voltar a pisar o palco da rua. Corrigindo a jogada da chuva, deitando a manilha seca à terra, o actor nas bermas. Suas sombras, transmitidas com o esmero angular da credulidade ao público ausente. Acto contínuo, simultâneo em vários suportes, um tanto destes demasiado daqueles. Vai-se a ver, e foram todos; deixaram para trás a escada de incêndio, à consignação de um retornado por entre os mesmos. Mestras presas por um fio. O vazio a ocultar, entupido por massa de presa rápida, ficando depressa ali à vista o gesto adeus para sempre. A Deus, à falta de melhor. É deixá-lo ir. Fechado por dentro, num compartimento envidraçado, saio do caminho por onde andam outros. Cubículo acidental, que o problema da habitação é outro, onde ruína e desordem ruidosa mal chegam. Pensar a música textual, em silêncio teórico. Um dia destes, ainda venho aqui comer o absurdo desta refeição. De uns andares acima, se despenhando, chega o som castigador da lixa em grosso grão, mecanizada, parecendo arrancar pedaços brancos a um céu ainda de pé. Assobiam lá longe, para o depois de mim. São as palavras a bater no ceguinho. Palavra, que palavras eram; tratava-se de muitas juntas. Trinta-e-um de boca. E a máquina é de novo ligada a quem a ela liga. Metade da primeira semana, a porta é mantida aberta, venha de lá quem vier. Ser chamado à pressa. Ó amiga imperfeita, como sempre, nos encontra a sorte jogada a meio da rua. Sempre vens, perfeito, isso é que é preciso. Deusa de papiro, em tuas roupas foi o tempo em que se ajustava a curvatura do meu olhar para as tuas esquinas, onde me virava. Não admito aqui, mas sou vítima dessa maneira estudada. Trejeitando teus lábios, o que não podias dizer diante de quem mal te acompanhava em género igual ao meu. É preciso ter bastante cuidado com as palavras. Não levo a mal, sabes a tabuada toda na ponta da língua, e tanto não faço questão em número como não faço contas à vida. Temos, hoje, um entendimento diferente. Na parte que me toca, dei por mim assim. Igual a zero. Dando graças à demasia deixada no tampo de pedra, por mão solta que não a nossa. Do nosso sangue desigual, corre uma estória que se conta a si. Boa viagem e poucos furos. Agora não tenho tempo. Chega a ser perigoso, o que cabe em poucas linhas. Uma destas tardes, por norma, cumprindo seu direito de resposta, aparece o funcionário das domóticas impraticáveis golpeando por nós pecadores, fios neutros numa fase diferente. Diz ele que está quase a chegar onde quer eu que sim, que se não preocupe. Sabe ele que já não acredito nele, que nos damos de barato. E tu te manténs à parte, no quarto ao lado em cima da cama, esperando nova ordem ou simples boa noite. Havemos de ir, já dizia a outra. Falta de ar, nesta manhã que nunca deixou de ser, igual a este dia e outro; manhã interrompida à brusca, pela asma de galo negro estacionado no lugar vazio a meu lado. Animal tingido da noite à mesma, sua. Sobe aqui mão invisível, apanhando o pico de galo, e por aqui o alimentando com a sua própria carne. O ritual de cantar, não tem custódia onde assentar. Arranco a chave à ignição, faço minha sua voz, saio a correr, morto por me ver daqui para fora e sair com vida ainda dia. Rodas dentadas. E certo olhar esgazeado. O martelar rigoroso, do operário fingindo entrar na miséria material. Se dá último nó, ponto, à rede a toda altura que nos protege dos olhares que vêm de fora. À vontade, picam a parede movimentos circulares no lugar exacto, à justa passagem desta composição. A poeira se larga do chão tosco. Martelam, martelam. Martelam no que ainda está de pé. Céus. Batem na mesma tecla. E é por pouco, que me afasto para o lado, continuando ainda assim a ouvir canudos, no calibre desta cerâmica em sangue vivo, indo abaixo como a ir-se, deitar em algum leito de margem perto. O marteleiro vê, olha primeiro, de frente para o horizonte que irá desimpedir. A parede, que nos divide e aparta de um sol acima de nós, é espessa mas não ficará cá para sempre. Já foi. O tumulto, dos escombros passados por cima por pezinho de dança, e o silêncio do marteleiro, faz por fazer prolongar o tempo, enquanto não é outro tempo, de partir. A frio, assim vamos, nos fundindo no todo a pôr à vista; sem nada quase sentir, abrindo profundo o roço, a tocar nos ferros do ser, que vai da boca aberta à voz até bem perto do coração. Inconscientes. Varre-se o chão para fora, com a lâmina da pá ao alto – besouros de metal incandescente, se fixando, e encontrando seu lugar à pele do tudo acontecer. Meu nome, ao contrário, entregue ao vento andando forte por aqui.

sábado, 8 de julho de 2017

DEIXAR SEQUER LUGAR







A única diferença
Era ninguém.

E no entanto
O incómodo por ser
Ainda de dia e
Mesmo assim…

Duas casas vazias e
As roupas não fecham
O medo dentro do corpo.

Barulhos fixos
À meia-luz se extinguindo
Mais lá para os fundos. Passos
De alguém
Feito numa liga mais leve
Que o tempo contado.

Despidos
A expressão e seus modos
Perguntam porquê
Mais isto
Fora do lugar. Ponto
Singular.

Acordava se aquilo
Era acordar acordava
Para o pesadelo o rosto
Submerso no caudal
Incontrolável do hábito. As margens
Roupa da cama
Uma muda
Embebidas na mesma solução.

O odor a químicos
Processados e rejeitados
Pelo corpo que tudo quer
Gasolina suficiente para
Em vida
Acender vela aos mortos
De mim. Contar ossos
Esquecendo que há muito
Se não sabe o programa
Ao manual da disciplina
Ou este liga com aquele.

Trazer ossos à mostra
Uns centímetros acima do nível
Da noite vinda
Passada a ferro
Pela posologia
Diversa. Munição
A fingir que me faz
Esquecer
Do menos importante
A lembrar:
Corridas de morte
Insultos irreversíveis
Puras ameaças
Das quais se escapa
Por uma unha
Negra.

Sílabas atrasadas
No palato. Queimadas
Extensas todas as direcções
No baldio inclinado
Da alma.

Empresa diversa e
Aleatória.

A criança que ainda não sabe
Andar por si
Agarrada à ombreira
Da porta aberta
Na biblioteca
Ameaçando os pássaros
Com palavras
De um dia
Mais tarde prometido
Às mãos que a seguram
Por um momento
Antes da derrocada.

A mãe vem lá chora
O que puder ser
Para já.

Se não é isto poema
Por si é
Distracção suficiente.

Chamar alguém e nunca
Pelo nome
Jogar os dados
Com força
Acima do pensar
Para que voltem
Viciados das alturas.

Juro
Sobre a tua pele
Palavra de drogado. Sim
É tudo verdade
Conveniente.

Saltei para lá
Um muro de pedra
Arranjado à mão. Me precipitei
Sobre a encosta
De altas ervas
Enquanto quem
Me acompanhava
Foi pelo outro lado
Bater à porta
Do familiar.

Manobras de diversão
E ninguém de nós
Tira proveito algum
Disto. Rir aqui não
É o melhor remédio.

A língua em
Que se diz isto
Atada selvagem
Pela flor
Da papoila.

O vento esse passa
Sonolento e solto.

Meios riscadores
E de mudança
De direcção:
Freios de cetim
Dentes de correia
Meio mundo
Metido em
Camisa-de-forças.

A mão ligada
Ao Senhor
A cunha em lugar
Do espinho.

Firo o peito
Com a faca da esperança
Fico a ficar
À espera
Virado para o lado
Em que o dia virá
Em que venhas a ti
Saída como nunca
Os olhos já a encontrar
Sangue novo.

Se o corpo se
Deixar acordar
Acordar e não
Haver lugar
Para ocupar. Pode
Acontecer e não
Sei como to dizer
Por outras palavras
Se nenhumas
Ficarem de pé.

Joga-se aos fins
Se faz o destino
Abraçar o fundo branco
De onde vieste
Repetir o mesmo gesto
Até que se apague
De nós
A pegada do início.

Vais a ver e
És ninguém. Vai lá
Ao princípio disto e
Vê se assim
Não é. Está
Lá escrito por alguém
Por mim não
Faz qualquer diferença.

Voltas para a cama
E só agora
Vês o que te aconteceu
De bom mau.

Estimada gata
Que se zangou contigo
Te virou as costas
Não sem antes ter
Pousadas as patas
Da frente em cima
Dessa cama
Onde te mexias
Modificando a expressão
Torcendo os bigodes
Ao odor forte
Que vinha até aqui. Era
Eu sim cedendo e
Uma das putas
Com quem me dei
Na altura me dando
Ela tudo o que eu precisava
E não. Nome
E corpo nunca
Estão a mais.

Terá sido o bom
E o bonito.
Depressa nos tornámos
Sérios e muito
Feios.

A casa não era minha
Havia sempre alguém lá
A esmurrar-me a porta do quarto
A meio da noite enquanto
Eu e quem estava
Deixávamos sair para
O resto da casa
Os barulhos
Estritamente necessários
Ao eclodir do escândalo.

Diziam também
Não a brincar que
Ali não era
Nem bordel
Nem sala de chuto.

Da conversa a seguir
Não há aqui futuro.

Me passou
Tanta coisa
Pela cabeça agora
É isto.

Assenta na vedação
Da tarde um pássaro
De cordel ligante
De frases inertes
Às quais me arrancas
A só voz.

Espaço livre
De gentes e bens
Sou o ponto mais afastado
Desta casa insegura. Antes
Da primeira coisa a dizer
Armo a mão com a lâmina
Da rotina entro
Nas divisões de todos
Os pisos antes do telhado
A cair.

Por cada
Vão aberto na parede
É o medo
De ficar à porta esperando
Pelo que não sei
Que me leva a entrar
E esperar tudo
O que possa de mal
Me acontecer.

domingo, 25 de junho de 2017

ESSE MESMO MOTIVO






Em risco. Amarelo, castanho, branco. Por cima ao que vai de perna, coxa. Usa ela véu e signos de mar e vento. Cai de um sono profundo. Lhe ofereço traços de horizonte, terra batida, barba e cabelo. Por um nada os olhos fechados, pestanas atracadas ao rosto. Abrimos o coração, fechamos a porta para os outros de nós. O sol não se vê já; teus seios sim e minha mão livre, torcida pelo desejo de os querer como segunda pele à primeira tentativa. Duas páginas em negro, uma em branco e a que vem mal escrita. Um tempo, uma data, um ano, um antro, uma cidade, um evento, uma demão de gente, uma evidência. O nome que lhes foi dado. Produtos do ócio, mercadorias conseguidas a troco dos elementos naturais. Não me falem em fogos, para já. Digo sim, a palavras novas, digo sim, a beijos mortais. A coisa que fique por algum tempo. O nome principal de uma organização secreta. Mancha escrita, texto pintado. Olhar ali. A linha curva de um crânio diluído no fundo cinza desce a pique se enruga acima dos olhos, vai de ângulo continuando a queda para a boca. Lábios juntos, voz aprisionada. Do pescoço para baixo, roupas apertadas, adivinhas. Mão fechada ao cabo do espelho virado para ti. Rosto e sol, hábeis instrumentos de encadeamento. Nudez e distância. O mistério rabiscado nas tuas costas. Superfície omnifóbica, o quotidiano. Nada fica. A distracção, punida pelo ponteiro afiado dos mestres transformadores de elementos pétreos. Mãos entrelaçadas, pesadelos contornados pelo lado do avesso. A ânsia pelo conteúdo, o abismo da peça maciça. Inquebrantável. Veios de madeira a fingir. Música deixada a tocar no último quarto, chegando pelo corredor, saindo pela janela, voltando a encontrar a mesma árvore. Toca e foge. A fúria por nada mais ter por dizer, estampando o veículo do coração de encontro à parede óssea deste edifício aldrabado que tenho por habitação corrente. Simbólico. O programa da vida, impresso nos mosaicos: reflexos e distorções, nenhuma verdade. Enfatizar a superfície, mostrar o contrário. Abandonar a história. Orientar o caminho a olho, rasgar o projecto insuficiente. Me ponho a jeito ao corte do golpe das tuas mãos, mãos listadas de noite dia. Olhar ligado pelos tecidos do corpo. Alma vendada pela espessura do esquecimento. Esperar ligar um ponto ao outro, por traço de contacto. Ter sede, não ligar. Com rede de malha apertada, vedar o acesso ao lugar da obra. Aterrar a cratera da dúvida, com materiais de empréstimo. Engolir o mar, vomitar o abismo. Noite e água de rosas. Um dragão por dedo, ateando espasmo à linha do teu desencontro. Assinar de lado a tragédia que evitamos, voltando as costas um para outro. A vocação levada ao extremo; tocar em tudo, não sair na próxima paragem, não limpar os óculos. Vestir preto e rosa em dias diferentes, gostar dos dois e de nada. Levar o contorno dos nossos perfis a ser nunca mais que um princípio de nevoeiro, soprado de cima por anjos incaracterísticos. Pendurados pelos cantos, os espinhos desta flor nauseabunda que nos enterra vivos com o perfume de corações decompostos. O articulado romântico, martelado nas colunas do artigo retalhado à unidade. O amor às formas, mandado àquela parte. A alma, flor que não vinga, uma ordem de números ao fundo na folha, em letra pequena. Não é nada, dizes. Um olho-de-boi por onde se vê, do outro lado da porta de segurança, um paraíso de sentido único. E uma mãe cansada, montada por anjo de segunda. Anjo selvagem mascando o tabaco do céu, cuspindo curto e grosso esta pasta do hábito no corpo da outra senhora. Toda visão, guardada de cada lado por um colosso aborrecido, acentuado no tom narcótico; tão distantes ou mais, como aquilo que guardam para si. E ninguém os vem render, até ver. O motivo, é só metade da razão. Ganha-se em tudo, não se perdendo pitada. Fraca evidência. Semente amarga. Serpentes, serpentinas fulminantes. A festa do teu rosto sério, impassível, enquanto dizes entre tantas vezes. A caveira se parte em suspiros, améns e loas. Cordas afinadas por executante cabisbaixo. Estátuas de musgo, uma posta a cada lado seu, choram a seus pés larvas intermitentes. Servem-se licores e venenos, entornas o corpo no chão flutuante. Espalhas um livro por cada divisão ao lugar, te demoras diferente em cada fim a dar a cada um que pede outra coisa. Tiras vermelhas, rubor esfiapado, cobrindo tuas vergonhas, mal dando em me impedir de te cobrir uniformemente com o óleo da minha mania. Louvada sejas, por me pores pior. Corto a sebe da intransigência com faca romba – belos desenhos, de monstros encostados ao fundo no jardim do horizonte. Alma de pavão, corpo infinito. Nus, de joelhos; encostamos as mãos de ambos, à armadura fria de um Deus corpulento olhando sem expressão, para depois de nós, na direcção dos destroços que plantámos nesta noite fértil. Ponto, ponto, ponto. Pontos desenham o deserto de vidro que se estende, estável, a nossos pés encardidos. E ninguém dorme, enquanto água não for encontrada, dê por onde der seja qual for o estorvo para quem. Sol negro. Triângulo castanho, inserido em triângulo branco. Línguas-de-gato, espalhadas ao fundo das escadas para o sótão. Símios. Jogos de azar. Constelações em aço temperado, temperaturas desmedidas. Resistência ao corte, frágil à compressão. Não mexer, enquanto se não resolver outra coisa e outro destino. Corresponder a cada parede, uma fixação. Mentir sempre, em lugar do morto. Trazer à vida, as figuras femininas cinzeladas no friso da imaginação. Perder a altimetria, esta noção de altura certa. Jogar tudo aos bichos. Lamber-te os dedos, empurrá-los para a tomada de corrente; fazer do sémen bom condutor. Estragar tudo com palavras de amor. Escolher sempre fruta da época, esquecer o que foi dito ainda ontem. Melhorar os insultos proferidos, com os dentes a ranger, durante todo santo dia. Fingir que não se liga a nada. Exagerar na água a verter, por sobre as plantas já mortas. Falar para elas.

domingo, 18 de junho de 2017

MEIO FÍSICO






O gato aparece por detrás ao caixote do lixo; se afasta para o lado lento, oscilando tremendamente sua cabeça, até parar. Quando para ali olho de novo, já lá não está. 

«Já não conhece ninguém», grita de outro lado um mais velho, a outro que passa. A menina, cinzenta e magra, vem. A menina foi, levando seu horizonte de metro contado, dos olhos ao chão. O electricista de Alta Tensão abandona este lugar de todos; vai ao volante do seu motor, a fazer pisca para desaparecer na próxima curva. O pássaro bate algumas vezes a asa, e deixa-se ir, por momentos, a planar. Outros pássaros, imóveis, cantam pelas árvores.

O fumo sai, pela chaminé da casa acabada de caiar.

Estalam folhas secas, anunciando pessoas chegando devagar; pessoas atirando a correia do olhar por cima do ombro que trago a descoberto; pessoas querendo já, e antes de me olharem bem os olhos, perguntar qualquer coisa. Por este caminho, nada dou. Muitos pássaros dizem, cantam. E as árvores falam do vento, por cima de todos. O sol acaba todas as frases, manchando-as de luz tardia; quase horas de fechar o dia.

«Boa tarde» e festas ao cão. Vêm mais cães, e mais pessoas por eles. Se alargam trelas à medida das suas conversas, e se colhem ervas de cheiro. Enganam-se na rua, outros, e levam os carros a dar volta completa à rotunda, por dentro, saindo de cena imediatamente pelo lugar de onde vieram. O que me está à frente é motivo suficiente para me enganar, no que lá atrás de mim ficou ainda parte. Me perco a olhar para o que não tem já forma precisa, não sendo mais que outra nuvem passageira.

«A ele lhe morde mesmo», não sei já quem foi. Quem se enganou lá atrás, vem outra vez a se repetir, cravando os olhos em mim, como se a resposta para a sua direcção, estivesse sentada a meu lado no banco corrido. Enganas-te, penso, uma e esta vez também, não fazendo disso caso.

O pai chega à porta do prédio, com o filho lhe dormindo no colo. A outra mão, livremente carregando o pesado saco de víveres. Pousa aquele na pedra sem acordar, encosta-o à parede, procura nos bolsos a chave da porta da rua. Entretanto, automaticamente, de um andar acima lhe abrem a porta. Junta tudo, vai para dentro.

A rola toca a tarde, com frase igual muitas vezes chega até nós.

O passeador de cães, nada tem que ver com os outros de quem falámos. Têm em comum um animal. Só. Vem de olhar esgazeado, animal em duplicado; entra pela direita a meu ver, se desloca para o lado onde o sol se está a ir, num repente. Faz barulho, acrescento, assobiando ária de ópera qualquer, não me soando a desconhecido. Música dos outros passando por ele, rondando as árvores, uma e mais voltas, subindo e descendo de intenso, conforme tudo ali o permita e com isso jogue a favor.

Vento     pássaros     moradores     terra.
Algumas casas, avançam.

A sinalização horizontal, branca, passada ao chão, ligando esta rua às outras. É o fio esticado até onde posso ir. E se perde assim já, um suficiente de meada. Ainda experimento chegar, ao poema que aqui me trouxe para o escrever. Coreografias de espaço     ponto     espaço     traço; a conversa sobre si, de volta aqui. Arte invisual. O objecto resgatado ao resultado incerto do seu corpo.

O passeador de cães entretanto vai, assobiando para o ar. O poema não fica pior, se aqui paro um pouco, seguindo até dar, com o olhar, esta figura assumindo o papel importante de se atravessar no caminho do que ainda virá.

Imagens convertidas à pressa, recuperadas para a escritura. E vice-versa, para outras que se perdem e bem. Motoriza-se a fala dos bichos, põe-se a nu a acção plástica. Contínua forma de desprezo, ao que se resume numa só frase. Tenho dito. Isto e nada. Ou um rosto, estragando a passagem de mão inteira, na cor escura dos dias iguais. Os sentidos, e forma de obter essa experiência de estar por aqui, não são negados ao contorno aparente: olhos, nariz, boca. E uma alma por trás, a sustentar o que sobra de dúvida. No dia que foi quente, desperta este frio que chega para ficar por dentro. No desconforto da permanência, procura o rosto outro lado para desaparecer, por entre acções transparentes. Faltando deixar isto como estava.

A construção do passado, sobrevive, empurrando o pouco espaço que ocupa, para fora da língua em que é pensada. Acontece conhecer esta aquela textura, na liga leve desse espaço que se inquieta com a cor branca. Mãos caem, segurando o chão ao absurdo da infância. Riscar o fósforo ou destapar a caneta, ambos riscadores de único tempo.

O respigador empurra o carrinho de mão; aparece no lugar do gato, faz tudo igual a ele.

Voltar à casa, atirar com a porta. Negar toda e qualquer resposta, às vozes que me vêm encontrar num dado ponto do corredor. Esvazio os bolsos, e vou aflito entrar na última divisão do espaço, direito à tela a envenenando com a tua mancha ainda quente na ideia. Voltas a voltar à casa; daí até à ideia, passas um risco por cima. Mau demais, para serem frases de verdade.

O corpo anexa à disposição dos obstáculos, sua mania linear. Traça um intervalo por haver, incorre numa linguagem em desuso, por ali fora, inconsciente do desejo que o anima. Dá lume aos cantos, no propósito único de accionar as sombras aí deitadas; onde a luz, qualquer que fosse, aí não chegava. Excursionista da negação, não dás parte de fraco. Sais ao caminho, onde sabes que te vais perder. De olhos bem abertos, oxigenas a alma com a última imagem da cordilheira do rito. Enjoas, e vomitas forte, à primeira sacudidela.

Nunca escolho a dureza ao riscador. Antes espalho algumas linhas e outros tantos lados de qualquer coisa; se depois conseguir fazer isso tudo desaparecer com esse instrumento, a sorte não saiu má.

A imagem da criatura, é sempre um arco abatido.

Marcar um som, na proximidade da boca. Interrompo este raciocínio, com as pequenas coisas da vida. Dentro de um vestido vermelho esta mulher, uma flauta nos beiços. Uma harpa metida no meio de violinos, prendendo numa melodia desconcertante a teia do lugar a que nunca se chega. Saudades de nada, tudo sempre tão presente por adição desmedida. E o espaço é sempre tão pouco para mais, ou nenhum.

A cantiga do inimigo é suave. O desinteresse pela refrega é total. Se esconde o sangue, longe de espelhos e arestas vivas. Não se toma banho, se lava à gato fora de horas, à pressa. Teu corpo hiperbolizado por furações maníacas, por aí levando o agora ao outro lado. De perfil, um seio é sempre sintoma de febre, uso e costume. Albergar tantos candeeiros, vestidos de vidro fraco e luzes tremidas, tal a soberba da noite composta. Ainda que em contramão. Com a certeza dos incertos levantar os pontos à topografia do horrível sem falhas, acertando a hora pelo pulso cortado do autómato. Faz-se contas de cabeça, joga-se a mão a perder o fio. Volta-se e é sempre princípio, acabando por nunca se ver o fim ao fundo.

Falo de memória, e nunca de um plano de emergência. Antes fosse, como te direi mais à frente. Desaparecer para nunca mais é um luxo para quem pode fazer disso, vida. Ilusionistas, ou ninguém. Virá a ser o mesmo, aqui em toda a parte. A verdade é o monumento que nos acostumamos a ignorar, andamos nós perdidos por entre o casario. Nem porta se vê ali. Um absurdo, se é coisa para tão pouco.

Em azul claro, a linha se endireita, vem ao fim, se precipita e escurece em parte, certamente ali. De baixo para cima, pode ser algo suficientemente sólido onde ancorar o olhar. O céu se deixa em branco, sabe-se lá. À transparência, se lê a bula do remédio esquecida no fundo da gaveta. A palavra deste lado fica doente com a do outro. Não serve. Então, o poema. Fora das leis da geometria, não há culpados. Num ponto a morte, é sempre a fuga à contenção das formas para a dizer melhor. Os sopros da noite tocada batem no tímpano do pano já em baixo, e voltam para trás. Sobre imagem ou reflexão infundada, é à medida que se perde misericórdia. A regra não vale o ouro que vocês aí reclamam. As horas são passadas de cabeça para baixo, abaixo do nível das águas no ventre da Mãe Saudade.

Contas os pilares à planta baixa. Falta um elemento vertical à estrutura que te sustenta. Ninguém por nada deu. Há muito que desapareceste, vivendo perto.

sábado, 10 de junho de 2017

DÉCOR







Ensaio o tempo
Ficando. Falta
Ordenar a vida
Andando, passando
À frente.

As gentes desta hora
De vento, vindo
Contrárias. Sentidas.

Perder hoje, o corpo,
É criar
A condição perfeita, inalterável
Tempestade para a
Formação de um
Objecto pleno
De amor e marcas
De mão, transitando
A direcção dos olhos
Para nada
Ver, indiferente.

De qualquer forma articulando
A morte ao longo
De toda a criação, simples
Momento feito fuga
Entre cada um.

Ao último presente, ligar
A verdade. Apagar
A cal da memória
Com a rebentação
Nocturna, anterior
A ires ao largo,
Encontrando esse
Naufrágio diário,
Caso contrário…falta
A hoje um fim
A dar
Com pau.

Pode a expressão resultar
Vazia, à justa de um
Homem habitando
A circunferência do hábito.

Romper a violência
Do vazio, é
Tempo de dizer
Livre, carregado
Dessa tensão inflexível,
Quase final,
Com que se reveste
Um todo
Durante.

Aquele quem era tinha
Curto o exterior.

Responder desse modo
Brusco, funcional,
Com a narrativa rangendo
Automaticamente entredentes.

Erro original.

Imagens transitórias, desordenadas,
Reflectidas entre as chapas
Formando compartimento
Atravessado na garganta.

Nenhum mundo, o tempo.

Formas, sujeitos – o futuro
Da ideia. Ordem
Pré-estabelecida. E não
Há Deus que
Ponha ordem
Nisto. Vem
A lume, jogar
A feijões, ou não
Venhas.

Pago nessa moeda,
Para ver
O fim à linha.

Centradas, imagens e linha
Forçam o caminho
Do isolamento.

Pontos postos, triangulando
O lugar desaparecendo. Mais
A distância se equilibra,
Na estória de um
Horizonte.

Imensa cena
Onde se tropeça
A meio, atravessado
O entender, parando
A isso o sentido
Dado.

Uma conta mal feita. Um
Resultado esperado.

Tudo e outros, concorrendo
À anulação das páginas
Sobre isso, qualquer
Coisa.

Uma despedida,
Como sempre.

Atacaram, ontem ainda,
A normalidade. Um agente
Ficou ferido. Disseram que
Passou na televisão.

Bárbaros. Simples
Atenções dadas aos pormenores
Mínimos, encontros de sons
E palavras gritadas
À minha atenção. Me remeto
Ao silêncio, que o não é,
Enquanto a pedra for
Minha pele e por dentro
A raiva
Lume.

Nascido neutro
Noutra fase. Avançar,
Procurar perder
A razão. Despoletar
Em altura a cidade, livre
De especiarias e exemplos
De tempo. Ignorar o centro
Ao projectado, levar
A espuma que rebenta
Ao fundo
Da boca,
A ver o mar.

Ligar a Natureza
Que nos habita
Com esta
Língua de trapo,
Vestir o céu
A espaços,
Com faixas negras.

Amarar em doca seca
A última palavra.

Carregar o fardo
De palha d´aço e
Deixá-lo cair
A teus pés.

Carregas de tempestade
O que não compreendes.

Em minha defesa,
Te digo não, já
Volto daqui
A nada, quando
Já esteja
Bem passado.

Sua besta
Quadrada. Nada
Mais tenho
Para te dizer.

O tempo bom, é
Uma boca
Com mau-hálito
Numa cara laroca. Feio é,
Bonito lhe parece.

Alargo a fossa,
Para que nunca te falte
Nada e espaço
Para as tuas merdas.

Já te calavas. E paravas
Noutra divisão. Outro
Ser, agora. Aí em
Baixo.

Olhas para o perto
Dos lugares com cerca,
Sem continuidade. Não
Largas o baralho,
O seguras
Junto ao peito,
Indo aos poucos
Pescar mais
Algumas cartas
Ao monte delas,
Espalhadas desordenadamente
Ao teu lado
No sofá. Mudas
A carta da frente
Para o fim e
Isto durante
Algum tempo.

Estremecem minúsculos seres
No chão cinzento
Da apatia. Cruzas a pista
Às pernas, um pé
Ante o outro.

Chove, copiado
De outro tempo.

Vens descalça, respeitando
As linhas do mosaico. Traças tuas
Diagonais e um sorriso
Ancorados ao muro
Do meu ser.

Me procuras
O colo, estendes
Pernas para fora
Do nosso contorno,
Ao ouvido me dizes
Que nunca dás as costas
Ao corredor, muito menos
À porta de entrada
Na habitação.

Pousas o baralho
Na folha branca
Junto de nós,
Sobre a mesa. Ensaias
A cor de um tempo,
Instalas em mim
A confusão de um
Rosto que se apaga
Para dar lugar
Ao olhar sobre
Este nada. Verdade ou
Consequência.

Por debaixo ao mesmo
Vestido, aí entramos
A pés juntos.

Aproximas o rosto
Do chão, com ele
Formas um ângulo
Ausente. Provocas a esquina
Com a luz da
Tua nudez. Pregas alisadas
A duas mãos. Transmite-se
A outra face, ai de nós,
À lisura tosca
De uma superfície
Que nos ampara.

Emolduras os teus
Primeiros passos
Na direcção do que foi,
Dás umas quantas voltas
Ao coração, com fio
De nylon, corrompes
Essa pele mínima
Com bijuteria pesada. Alargas
O furo já feito; trespassas
A luz branca do projector
Com a mão livre,
Radiografas a bainha
Com motivos geométricos
Ao cortinado preso
À janela fechada
Para a rua. Redundante.

De costas voltadas,
Dispões as cadeiras
Que sobram à divisão;
Endireitas o espelho do tecto
Onde nos repetimos. Aí
Se prende, num dos vértices,
Um ramo de flores
De cabeça para baixo,
Secando ao ar.

Acendes de boca
A vela dos mortos
E um cigarro por favor
Para nós. Abres tiro
Aos pratos com o
Sapateado demente
Das tuas frases
Soltas. O animal
Estatelado, sendo eu,
Mais não é que
Uma falha no décor.