sábado, 26 de maio de 2018

TERRAPLANO






Cada um no seu lugar então sou, este princípio de sombra infundada. E é o que é, distinto de nada ser; não que não seja um bom disfarce a manter. Água descarregada, sim. O pio dos pássaros, costurando a última parcela de linho neste recorte a meio pelo dia. Os pássaros, e nossas penas. Ardis de bronze, assegurando a efígie aos próximos. As crianças espalham cartas ao acaso pelo chão de inertes. Naipes de sol e lua, se acertando e caindo em desordem que se entende. Andamos pois, descalços pela casa. Andávamos, vamos, antes daquela voz se retirar, e nos obrigar à acção até à absoluta extinção dos cristais resistentes. Nos cortamos com a parte que nos excede, enrodilhados no cotão difícil do rectângulo jogado no chão acima. Vamos ao lugar, em gestos atalhados. Maus ossos dizem, não fazem a figura de um ás. Montículos de tecido, cozidos à distância repetida na largura do artigo; suaves dunas de corda se dissolvendo em significados. E alguém no céu mexeu, mais de uma vez. Cadeias de ferro penduradas no prego, desenhando bicho de luas rodopiando, cercando sol azul de fingimento, por aí fora, desaguando a última ilharga na praceta de um sino quadrado. Me dás resposta seca, à pergunta que me não lembro de ter feito, e te retiras para os fundos indo dar água às plantas de que falas quando com elas não falas. Encontros de parede, se dando à esquadria das sombras. O vento vem encostar a mortalha dos cortinados à planta nua de meus pés, me entrevando a fala nesta divisão branca. Caixa de ritmos substituindo a maquinal esperança, pela experiência atonal do coração que se me desprega do peito oferecido à bala de teu olhar. Polindo a pedra, se ganha um espelho de águas paradas, sôfregas por matéria a se diluir. O susto pregado ao ser assim mesmo, encontrando palavra que é só por hoje amanhã. Cânticos texturados, se alternando a instrumento flautado, em valeta caídos juntos num fraseado de copos meios cheios. Vamos, nos continuando. Corres na minha direcção sem morada, te atiras para cima do catre, estendes o peso todo do corpo a meu lado esquecido. Húmus, psoríase: depositados à beira da ferida escancarada, rasgada durante a fuga ao incêndio acabado de lavrar, prometendo noite longa e um belo jogo de luzes e azar ao jogo. Reviro olhar à existência aparecida do que lá fui, registado à queima-roupa por fotógrafo acidental. Perco andar, num pezinho de dança com o ímpar. E assim, se conquista, artificialmente, a palmo, pouco mais de metro quadrado ao terreno da morte. Fonte de águas santas, fumeiros desatados, canícula – pão de mistura. Frutos secando sobre serapilheira sobreposta à cortinha orientada para o sul do sol. Tenho um cão de febre e a visita deste enfermeiro pontual, não se esquecendo de mim bem quero em dias seguidos, precisos, uma série deles, me picando ao de leve nos braços, me corrompendo a morte me trazendo à vida, se valendo da carta alta dos venenos. De cima do lioz aparelhado à berma do cais, putos se oferecem às águas sujas do rio, experimentando à vez iludir o tempo de ir. Intrusos rígidos, descompondo tudo todos, em ânsias – atiram terra aos olhos que os olham; atiram suas merdas reagindo a quente, defecando decassílabos difíceis de arrumar na prateleira dos que se ficam. Tiro ao boneco. O gosto dos alteradores de consciência, resistente ao desalojamento debaixo da língua. Jogos de arcada, psicadélicos. Elefantes sagrados, revestidos a napa cravada de afiadas tachas, cuspindo cor diversa e putas de estilo, exagerando oferenda aos mortais. Todo o equipamento alinhado ao longo desta câmara escura obturada por paredes de fungos de estimação e ódios de cultura. O espaço nos engole, pois, nos desviando de viver outra vida. Fechas a porta da instalação sanitária, te ouço deste lado a descer o pano das roupas que te sustentam, e o crescendo quase nítido da sofreguidão a que te abandonas no agrado à própria. Não havendo nada em contrário, bates à porta antes de saíres por aí. Cá te espero. Isto promete. Indumentárias a preto e branco, aos quadrados de outra cor, lisas, usadas acima do joelho, arregaçadas no braço, listadas, com dizeres. E não é tudo, não. Não te esqueças do que ias a dizer. Voltamos já. Homem breve, desmemoriado convenientemente pelo pesadelo adoptado. «Filho atravessado» é o que me ditas ao ouvido, entredentes, esperançado em resultados visíveis gravados no branco da folha. Brinquedo vaivém, balouçando a sombra que te estende deste nada para o lado, do lado a fixar como coisa sem importância. A mania da prosa se repetindo, ecoando fundo a despropósito, na louça da alma sem tampo para baixar. E de ti, nicles, nada se sabe. O resguardo da esperança é fino empecilho ao banho de sangue que se entorna em cada noite bem dormida. Insalubre sonho ou doce insónia? Venha o Diabo e escolha por mim assim como assim, como todas as vezes antes. És outra. Fechas a porta, te encontro a diferença: dás duas voltas à chave, nitidamente. Acusas o tema de terra e ar (não contes comigo e outros de nós), suavizas a instabilidade dos entornos vívidos, ao marulhar das ondas de vidraço se levantando no terreno da tua projecção. Vai dar um beijinho ao avô, vai lá. Preciso do número do teu segredo, sei que o sabes de cor e salteado. Anteontem o sabias. Basta mo dares e ficaremos como dantes, indiferentes. A casa nos espera no fim da rua, vazia, vibrante da mixórdia sonora que a entope no interior dos tabiques. Hipotecámos todo vasilhame, por um fio de água corrente. Sujeitos a litígio com as perguntas de nós, levamos ao extremo a imobilidade do personagem. Espera sentado. Também eu já quis mais sair de aqui, respirar outra coisa. Não sou capaz. Te acompanharei porém, caso mudes de ideias, até ao fundo do corredor, saindo pouco antes do quarto de serviço. Blocos de pavimento à cor envergonhada, dispostos em espinha, formando dancefloor de aluados. Apanhando à mesma do vento, tal e qual. Árvores de folha caduca, metidas pelo elenco dentro das espécies. Fixações àquilo. Barras metálicas. Varões de aço. Rosas-de-pedra. Punhado de terra. Piso artificial. Areia solta. O mesmo vento de há pouco, e sombras no entra e sai pelas portas abertas, na arquitectura notável que se desenha para os espaços vazios. Queres o quê? E tu? Como dantes se davam as mãos, se empurravam carrinhos de rolamentos. Cavalo de pau não é já, mas se lança fluente em frente de igual. Se arrastam pela tarde, as embarcações idas ao futuro, alguém as levando a estacionar no hangar do dia presente. Um mais um, pois. Dois mais um, sais. Ser saliente, a recusa em me esquecer de trocados. O assombro das mãos apetecidas que se jogam numa só mão. FAITES VOS JEUX. Pois dizem más-línguas que nunca nada de diferente sai à morte viciada, condenada que está a recolher o mesmo cadáver esquisito de todo igual.



domingo, 4 de março de 2018

TRIAGEM







António José de Oliveira, gabinete de electrocardiograma. David Alexandre, gabinete dois. Tosses, e calas o que te vai para aí. Circulam espessas as vozes, algumas coagulando nos encontros de chão e parede. Maria Emílio Loureiro, triagem 1. Conversação entre Governo e PSD, ou lá o que é, passa, na televisão sem som. A jovem, exagerando a cor do sangue no rosto, tendo se sabe lá o quê, à espera que a chamem lá dentro. Luís Castanheira, gabinete de electrocardiograma. Podia guardar os nomes para mim, mas não os quero. Certos e enganados, de viva voz, atirados para dentro da sala de espera. Onde os sentar, cadeiras azuis. Devia ser quarta-feira, alguém disse. Paulo Alexandre Mocha, gabinete 11. Familiar do senhor Jorge Amorim, à sala de médicos. Valentina do Ó, gabinete 7. Paulo Jorge Santos, triagem 1. O casal de meia-idade, meias-tintas apertando no tornozelo dificultando a progressão em tão pouco espaço, se chega aos outros, nós, os que já cá estamos, se sentam na fiada de cadeiras junto à parede onde estão pregados a Planta de Emergência e sinalética avulsa. Não se liga a nada, nem a coisa nenhuma. Sim, vai à volta. O baraço escarlate é desenrolado, se imagina, sobre os quadrados de chão branco sujo, se desfiando aos poucos nas arestas vivas da construção. Toca o telefone. Investimento no interior, em análise no noticiário. Mais tosses. A pondo no colo, desapertas a mala de mão, a custo, e de lá dentro tiras uma maçã. Mordes. Vais levando a respiração, sentindo a pata de um bicho de grande porte sobre o peito. Maria Mendes Cardoso, gabinete de electrocardiograma. Quem te julgas? Pela parede, fora a fora envidraçada, passa a vista para as ambulâncias estacionadas lá fora. Gritam aí, na rua, à porta das Urgências. Descentralização de competências. Cordão de ouro ao pescoço de um, casaco sobre o braço. Lá fora fresco, abafado cá dentro. O sócio, contando pelos dedos a família de um número, e ele próprio, da Sorte Grande em sair de aqui vivo. O sócio, de boné com a pala para trás e passado, o número aí gravado, preto no branco. A velha, de pulseira amarela no pulso, mais perto de cortar a meta, com a mão fechada sobre os olhos. Valentim de Sousa Capeta, gabinete 12. Teresa Garrido, triagem 1. Disse. De lado, como estás e eu, à mão da janela a toda altura, por onde nos entra a rua desabando sua intempérie. É noite, sabemos já. Acompanhante de Joaquim Magro, gabinete 7. Te faço festa, fixando olhar a ferragem cravada na tua orelha. Francisca Dias Ribeiro, gabinete 4. Putos pobres, correndo desalmados por viela de lugar subdesenvolvido, sintonizados no ecrã do tecto. Pode estar perto. Até aqui acordo, outra manhã se não sabe, se acompanhada de frases soltas, se varrida pelas mãos se afastando uma da outra, negando dizer adeus, outra coisa. Mário Rui Raimundo, triagem 1. A borracha do calçado, chiando apagamento ao andar. Flores vermelhas, apanhando da chuva e das luzes lançadas pelas viaturas de emergência. Intermitentes pela divisão dentro, se estancando na parede ao alto. Dez para as dez, não mais, riscadas no relógio. António Candeias, gabinete 8. Mukhtar Ahmed, gabinete 3. Jéssica Perfeito, triagem 1. Pedimos a vossa atenção, por favor, pedimos a todos os familiares de doentes quantos aqui estejam, que se retirem para a sala de espera até à meia-noite. Mudança de turno. Turismo no Algarve. Elisa Martins, gabinete 2. Dezoito dá seis, conta alguém por alto. Pai e filho chegam. Pai, desviado por piratas do ar dele só, o olhar esgazeado marcando todos os lugares ocupados ou não. Joaquim Pinto, triagem 1. Hélder Correia, gabinete 7. Te manténs calada, eu ao lado. Beijo para quem chega, café e cigarros para quem fica. Turismo em Portugal. Mário Raimundo, balcão 8, cirurgia. Zuleica Gonçalves, gabinete 12. Margarida Borges, gabinete 8. António Oliveira, gabinete 11. Se revolvem, as várias posições do desconforto, no assento; fazem ranger a estrutura que os prende a todos nós. Colóquio dos Simples. Cajueiro, romanzeira, gengibre, pimenta, figueira-do-inferno e o diabo a sete, lavrados no vinil colado à parede. “O que hoje não sabemos, amanhã saberemos”. Será tarde? Céus. Por dias. Drogas e coisas da Índia. Fácil nos perder, no que nos acrescenta de rua. Primeiro debate entre Fernando Negrão e António Costa. Luís Castanheira, gabinete de electrocardiograma. Te sobressaltas, pondo rápida a mão sobre o peito. Não, descansa, estás ainda aqui inteira. Eu conto de aqui. Sim…claro! Criança se distrai, suas pernas em balouço indo vindo debaixo da cadeira, olhando o televisor onde não passa o noticiário. O velho de muletas demora mais que esta frase a ser construída, a se sentar a meu lado.  O velho de muletas, segurando o relógio de pulso, deixando mão aí sobre o vidro do mostrador. O velho de muletas, depois de entrar, em sono profundo, se irá convulsionar se engasgando de pesadelos, e cair ao chão a tremer. Eu e outro homem por perto, descemos mão nele, e o subimos para a cadeira. Agradece, sincero, por detrás da cortina de água frente aos olhos. O velho de muletas, não espera por ser chamado; vem queimar as horas, até ser dia outra vez; não tem ninguém com ele, nada na manga, nada nos bolsos. Não pede nada, não pergunta nada. Só. Fica. O casal de meia-idade se levanta; pousam os casacos sobre os ombros, sobem as calças na cintura. Fechos abrem fecham. Carlos Constantino, triagem 1. Marcelino Santos, gabinete 13. Dez e vinte, ainda noite. Debate quinzenal no Parlamento. Sou deste país, prometem. A jovem, de cabelos pintados à cor verde, à cor cinza. Hilda Fartagh, gabinete 13. Arruma as coisas. Acompanhante de Domingos Ferreira, à sala de médicos. Paulo dos Santos, gabinete 8. Vanda Condessa, gabinete 8. Se repetem. Leonor Vergueiro, triagem 1. Manuel Encarnação, gabinete 3. Paulo Jorge dos Santos, gabinete 8. Sandra Magro, gabinete 1. Esmeralda Caetano, gabinete 14. Parou a chuva. Falam baixo. Passam pelas brasas. Uma calma que não é de aqui. Voltas à mala, levantas de aí garrafa de água. Dividimos. Foi a filha que, antes de sairmos à pressa de casa, se lembrou de a encher com água nova. Não está connosco, dorme em casa de outros. A meio da tarde começou a chover. Nevão começou ontem à tarde. Voltaste para me buscar. Marco Mateus, triagem 1. A criança tosse. É a única criança desta hora, e ouve espirituais negros pela telefonia da mãe enquanto espera por ser chamada. Dez e trinta. Tossem. Chega mais gente, famílias de número inteiro. Jorge Coelho diz que são precisas medidas radicais. E chá. Recebo mensagem no telefone, mãe perguntando por nós. Estamos bem, respondo. À espera. Privados vão limpar florestas, até 15 de Março? Vão? Aldina Paula, gabinete 15. Antónia Ferreira, gabinete 7. Onze e dez. Ilda Romão, gabinete 11. A sala se encheu, de ruídos vindos do altifalante. Atravessando chuva como outra qualquer. Riem, de cagaço. Estou? Dez segundos. A olhar para cima, a olhar para nada. Família de António Ribeiro, gabinete 10. Com sotaque, se ouvem. Boa noite. Vou chamar pelo nome do doente. Eu chamo. Maria Fernanda. Maria de Fátima. Maria Elvira. Leopoldina da Conceição. Desculpe? Felicidade Maria. Joaquim António. Alfredo João. Rosa Almeida, gabinete 14. Ricardo Cabral. Luís Felipe Candeias. Acompanhante de Luís Silva, gabinete 4. Joaquim Manuel. Ricardina Maria. Domingos Ferro. José Augusto Cardoso. Maria Isabel. Joana da Piedade. Quem chamei, pode-me acompanhar. Proprietários são culpados da propagação dos incêndios? Portas automáticas, de duas folhas. Onze e vinte cinco. Deverá haver endurecimento das penas para incendiários? Perguntam por ti, e não sei já que responder. Falar. Dizer de outra coisa, de nós mais à frente. Estamos doentes de viver. Madeira queimada pode ser usada? Devia saber, e não. Sandra Marlu, gabinete 1. Esfregas o calcanhar com uma mão, com a outra, falas ao telefone. Sim. Sim. Não. É. Amanhã se verá, o que no dia de hoje não cabe mais. Onze e meia. Não podemos confiar no que ela diz. Acompanhante de Joaquim Ribeiro, ao átrio de emergência. Água cortada pela lâmina do rosto. Fora. Lá. Agressão. Sandra Maria Magno, gabinete 8. Laura Pedroso, gabinete 2. Acham que estes panos cheiram a clorofórmio? Népia. Alguns. Meia-noite vinte cinco. Maria Isabel Rosa, gabinete 12. Vê se ela consegue vir cá fora. Um segundo. Porta que se fecha. Tossem. Bates no joelho com a mão, duas três vezes. Abandonam o átrio exterior, de muletas, ao vento. Urgente. Reagindo, se contam candeeiros pelo interior do estômago forrado a papel de noite. Fechas os olhos. Dormes, ou finges. Suspiram. Bocejam. Gabinete 8. Gabinete 8. Dormem, por certo, alguns dos que estão espalhados por duas três cadeiras, olho fechado, olho aberto. Cães, farejando o que se não espera. Duas e vinte. Estamos no bom caminho para errar. Aqui se falam, se não todas, exagerando, um punhado de línguas diferentes. O velho de há pouco, agora em frente, pousadas que estão a seus pés as muletas, para o caminho, encosta o corpo ao contorno curvo do pilar de betão aparente, estremecendo de quando em quando. Não descansa. A maria-rapaz, de olhos injectados de abandono e substâncias de distrair, deu quantas voltas à imaginação, ocupando as posições possíveis, sentado, deitada, por lugares que vão ficando aos poucos à disposição. Arranca em mudança repentina, acelerando até à instalação sanitária, fazendo estrondo a fechar a porta, fazendo barulho lá dentro, vindo voltando a gingar, capuz enfiado na cabeça. Duas e meia. Tossem. O ar condicionado, nivelando a temperatura por baixo, fazendo respirar melhor. Outro. O filho bastardo do profeta, se aliterando em certo afastamento, vai à rua, dança por dentro da chuva, vem para dentro, experimenta os lugares vagos, e outras coisas, se levanta, vai à instalação sanitária, vem devagar para junto de nós, ao mesmo tempo que enfaixa os braços, direito esquerdo, com papel higiénico que irá desenrolar, devagar, para o usar, misturado com desinfectante, na lavagem dos pés. Se descalça. Exala o fedor difícil da refrega corpo-a-corpo com ele mesmo. Se anima. Executa a dança guerreira, pacificadora do seu modo de estar. O olhar que dele se perde, é tão só a linha fraca que o vai ligando à linha de terra. Salta à corda que não tem. Desenha para nós a adivinha que é só dele. Três pequenos pássaros pousam em si, livres de errar o espaço. 

sábado, 30 de dezembro de 2017

PESO LÍQUIDO







Inquilino na casa
Suspeita, me convenço
Aos poucos
De que, até ver,
Não terá isto passado
De palavras se jogando
À melhor de uma
Delas, a
Estraçalhando
Até perder os sentidos.

Se asseguram aqui
Serviços mínimos. Inventando
Afinal, formas e sinais
Vitais.

Pode
A tensão absoluta
Da verdade, espantar
A origem do olhar?

O engano a tracejado,
Sinalizado de invisível,
No limiar de toda expressão,
Disposto nas entrelinhas
Da coisa pensada.

A solidão não é flor
Que se cheire,
Nem se dá por ela
Ao olhar, é sim
A fria maioria de um
Coração claro
Partindo a direcção.

A natureza
Desta natureza, é imagem
Fora de forma,
Extravagante mão
Quase firme,
Em parte lume
Em toda a parte.

O erro, sério, ainda
Assim postiço, é implantado
Na boca materialista,
Beneficiando em vida, de algum
Corpo perigoso, intruso,
Com princípio
Sem fim.

Dirigido, o objecto
É parte do problema e
Padrão do hábito.

Alguém exagerou, assim
Dizendo, o lugar de olhar,
O lado sintético,
O grau contrário,
De tudo determinado.

Pouco mais longe é
Do motivo a disposição
Integral do texto
Entregue um nada
Aos impulsos da forma. Negativo
Aberto à mão,
No paramento da existência.

Não entra aqui
Luz natural seja
A hora qual ela for,
Em mim enfraquecendo
As paisagens.

Lábios armados
De inocência, residindo
À pele
Na longa multidão
De tons tentados.

Assumo. A intimidade do vocábulo
Repugna, dilacera o mais
Vulgar no espaço
Sóbrio do verso.

Percepções insignificantes,
Consequências
Da intenção.

Enquanto pedras, acreditamos
Para lá do mundo
Matemático. Nada
Pode ser verdade
Inquestionável.

O silêncio é um canto
Estreito, no conforto
Da rua. Vagueamos
Pela espessura mínima
Do céu, aos contrários.

Sobre a fé, há toda
A nomenclatura da neurose,
A negação
De todas as nações, um erro
Encantador. Com belas palavras
O medo canonizou
O perigo no mundo. O maculando
Impressivamente, de impressão
Digital.

Em mudando a hora,
É tempo de
Interrogar os vestígios
Desse animal
De pó. Há
Quem lhe chame
Instinto.

Um conceito entendido
Pelo objecto.

Sacrificava o destino por
Algum brinquedo herdado
De outra existência.

Em profundidade
Uma imagem sofre
Seu grão,
Seu encantamento
Ao ruído, aumentando
Sua obediência
À vida.

Um lume
De fracassos.

Inverter num Deus
Doentio,
A armadilha
Da sua forma
Exacta.

De insuportável grau,
O eco de um
Homem da música
Conformado pela
Sujidade das notas,
Se expressando por
Admirável degeneração,
Se tocando a si
Mesmo.

Estamos acordados para
O instinto
Do suicídio.

Os poetas
Podem mentir
Com as mãos,
Mas nunca sobre
A múltipla compreensão
Das condições adversas,
Sintagma climactérico,
Desta nova realidade
Proposta. Lançam pois,
Contra a ousadia
Da seriedade, a mais volátil
Das armas, dando sua palavra
De honra.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

PIONÉS








Os comboios não deviam andar
                                                                    (para trás)

Allen Halloween, Drunfos.



Ganhas a taça. De um branco, tinto ou palhete. Sabes, assim sei eu, nunca é a cor o que verdadeiramente importa. O vazio, sim. Lá no fundo, a te contar pelos dedos certa voz, ficando, te lambuzando os ouvidos, aos poucos e caídos. Quase não restam dentes para arrancar à gengiva da forma. Se massaja a carne com pecado ou outro, se nisto se acredita. Sim, senhor. Nada de mais, pelo menos. O que sobejar, a este nada, serve. Servirá a outro, que se aproveite. Cânticos de época passada, entoados a só voz, datados por carbono admitido em passeios gastos na sola da pedra. Esquadrias intrusas, mal dispostas em espinha. As vozes, algumas luzes, se diminuem quanto baste, à atenção dada a outra coisa que não esta. A coice dado, se não salva a serpente. Dá um olho por isto, enquanto volto não volto. Pássaros escorregadios, brinquedos de lata dobrada, lavando de vermes o tronco às árvores plantadas no espaço de uma limalha intrusa ao olhar. Espaço diluído, percorrido e ultrapassado pela direita do silêncio. Sinetas espessas, percutidas pelo lado de fora, as almas fecham as portas com estrondo, e se desculpam com o mau jeito. Se dá corda ao gesto, um que seja, um que se veja. Tosses. Sim, senhor. E agradeces tudo o que te é tirado. Te tocas, é hora. Não estás certo. Nunca estás. És relógio habitado por falso cuco, amestrando fora de horas os gonzos do lugar dando entrada. Dás lume a quem por perto passa e pede. Nas mãos experimentando a têmpera, a ajustando ao hábito corrente. Mecanismo gago, certo incerto picotado na esponja da pele, apontado a dedo ao longe nada lá. Nevoeiro convulso. Foste enganado, sabes. Dizem que a noite foi a de ontem, e por lá ainda não passámos sequer, não, trovador, não no meu calendário, nu de mulher e seus dias do mês. Tanto melhor, em menos de nada. Me deu certa volta ao estômago, vomitei os restos do jantar, ainda que me não lembre do que comi, ao que joguei a mão. Vai-não-vai, foi. Pões a chaleira ao lume. Na bancada de trabalho cortas o dedo e o gengibre, os reservas para daqui a pouco. Escuta. Eu também. A locução distante de um verbo transitório. Coxeias ligeiramente, sim. Mas, sobretudo calas. Mais à frente, na rua, dizes o que foi de ti. O horizonte é lâmina dada à boca. Palavra gasta no fio circular da mó, lá, encostada ao corpo do moinho inventando correntes para si. Mo apontas por conta do que gastámos à tarde a que viemos a ser. Mansas águas mendigando olhares e actos irreflectidos para seu meio de vazar. Um par de sapatos vermelhos, cravados de esferas negras, abandonados sobre a caliça acomodada, no contentor de entulho atravancando a viela onde nos apanhámos do chão. Visitámos hoje as ruínas de casa, não nossa. Reforçámos a pedra, no rim de nosso querer traçado por vazios arquitectónicos e caídas malhas estruturais. Inspirados, acertámos em implodir, um destes dias, longe de paredes e outros perenes cacarecos. Focos de luz, embutidos em tecto simples, nos rasgam caminho no vidro, até ao limite franco da perspectiva. Animal de balão azul dobrado raso, à mão da criança perdida no túnel de rede suspenso, a meia altura entre o chão do agora e o céu do nunca mais. O degrau do silêncio, em passo confortável, decomposto em cobertor e focinho. Depois de mim, sobes, lenta, a escada do acaso. Entre pisos paras, pedindo ao ar um nada de oxigénio para ti e para os teus pulmões algo desencontrados da sua caixa alta. O cão vai justo à corda da mão. A mosca intrusa, rouba um pouco de atenção. A prosa se fixa, imperturbável. O velho por perto, andar abaixo, tremendo o rosto em vários sentidos, pronunciando a beiça inferior para fora da sua linha, dado por observado, se desconchavando, se libertando da matéria rigorosa do corpo, acelerando o passo ao desaparecer. Roufenho bombo, mesclado no tecido das gentes se passeando em um dia de nada fazer. Há, por aqui, fartura e cachorro. Ócio de brincar, e de se fazer de ocupado. Olho de vidro. Paixão de ventríloquo. Azar. Tudo deitar a perder, se afinal se deixar ver. De onde isto vem, virá outra coisa. Melhor pior, outra coisa. Ladrar de lado, e a esquina morder de viés à sina. Parar de rimar, imediatamente. Ir à porta, rodar o puxador. Confirmar estar fechada, ir ao balcão pedir chave que sirva. Não, não sou eu. Parte deste. Abres a caixa. Alinhas, no chão, as ferramentas que nunca pões a uso, e inventas para elas o absurdo da necessidade particular. E problemas de construção. Timorato servente no asilo da esperança, temo aquele que surpreendo ao espelho. Coincidimos por nesga, em discordar sobre o mesmo tema ou figura. Partilhamos a gaveta única dos riscadores diversos. Ao contorno do corpo, damos um costume parecido. À vida, nos dá igual. A nada. Puxas água ao autoclismo, rodas a chave, viras o rosto para debaixo da calçada a fingir, no interior do edifício de servir. Buzinam. Desviam olhar, nós olhamos de igual. Podia ser o carro do peixe, a biblioteca ambulante, o homem dos gelados, o amolador de facas desusado de flautas de Pã, o padeiro. Vários são. E nenhum me serve. Procurar por ti, revolvendo chaves no fundo da mala de viagem. Aqui estás deste lado, hoje. Andas atrasado, pois areia é vírgula para frase andando por aí. Desces o balde negro à fria noite circular, o atestas um nada de memórias e rostos deformados. Acendes cigarro, antes e depois do coito. Não travas. Vais andando. E suspiras. Usas e abusas do químico nos papéis que te dão à mão a rasurar, em se cumprindo. Papéis espalhados à toa do gesto, pelo tampo em pedra, no interior da divisão no piso térreo. Queres querer. E nada. A mão vai nua à corrente. Se equilibra o corpo, em um dístico colado ao ar quente do sopro desencantado da tua boca breve. Anda irrequieto um cavalo de madeira. Espera. Enquanto se transporta o sentido sem fundo, da página anterior para o subsequente agora ainda, sem movimentos estudados. Precipitação. Voltámos à noite. Pagas tu. Mandas vir. Esconjuras o carácter circunflexo, desta falta de jeito em te fazer um agrado. Desprezas qualquer manifestação de sinal contrário. Deu positivo, para o que deixaste entrar. Passa. Eu ao menos tu, te dá igual. Sim, senhor. Quantas vezes fora o Mundo em carreiros. Formigas descomprometidas com a albarda dos afazeres. Moedas batem, umas nas outras, reproduzindo o ruído de um olhar atingido por imagens disparadas de um só ponto. Contamos armas. Juramos servir, à justa, o propósito firme de não dobrar a folha em mais de duas. Contamos estar por aqui um dia ou dois, amanhã e depois. Outra vez. Voltar à vida que nos traz o dia por passar, olhando por cima dos ombros para trás das costas. A luz se não abre, se acende. À hora dela. Não ligues. Me podes responder, então. Se não tem isso que se ligar ao que seja. A este àquele ponto à parte, chamas o agora. Já. Lá vai. E estão quase todos aqui. Corremos o risco de Deus ligar e cá, por pouco, não estarmos a nos explicar. Para, esquece. Lhe agradece outra vez, tal como o farias com qualquer perfeito desconhecido. A combinação do entendimento, porta abrir fechar abrir bater. Ir para dentro, perguntar. Ao de ti mesmo perguntar se alguém viu ouviu alguma coisa de mais. Sim, senhor. Aí estás? E ainda, legitimamente, será este perder o fio à meada do caminho desencontrado. Desconsegui, sim. Ali está, ele ali a se descontinuar. Sangra? Veremos. Vá lá. Estou perto, de nunca lá chegar. Estou certo. Pensava já que estava perdido, além de tudo. Indirecta, esta luz implica no restolho das sombras precisas. Sombras reanimadas, à superfície do transtorno. Vamos a ver, e é pouco. De esta hora de aqui, em diante, nunca haverá tempo para nada. Sabemos. E nada se marca para nós, com a tinta de uma data. Não.  E nem há certa, a proporção de ouro que nos caia bem e nos coloque em posição, determinada seja, no interior da fotografia, nos beneficiando de alguma forma, e de que maneira. Fotografia olha o boneco, atirada para debaixo do tapete, em se revelando, da herança dos outros. Ámen. És o que se fixa de um grão em superfície qualquer. O que foi? Não respondas, não agora.  A tentação, insuspeitamente, é toda ordem projectada à carne, com a precisão transgressora fora do risco. A tentação, de igual para cada um, é a vianda dada à mão cheia à boca no focinho da besta ideal, em dia incerto. Outro dia nos traz, o que ontem e antes de ontem nos trouxe: o clarão lapidar da repetição, e a esperança retorcida sobre o que haverá de novo na hora próxima.

Pela rua fria, madrugando, intransigente, o velho esquizofrénico, forçando o ritual, a se chegar à paragem onde, à mesma hora de sempre, espera o autocarro um fêmea exemplar de idade meia. Lhe dar a mão, e a falha dos dentes num sorriso aberto, dispersos pelo tempo de chegar seu transporte. Ela se abre de afecto, e o velho, nessa faísca arrancada à existência a lhe fugir, vive pouco mais que a maravilha do milagre caído a seus pés. O autocarro arranca, e de uma de suas janelas se sacode ainda um adeus ao velho. Em desaparecendo a forma motora no ponto final da rua, o velho se transfere de modos para as fachadas à volta, atravessando a passadeira, se equilibrando na bengala, se sentando no degrau em pedra da mercearia, até à hora de abrir o comércio. Me atrasando, já o vi aí entrar, demorando pouco a sair, com uma garrafa pela mão, já aberta, de um leite achocolatado, e se voltar a sentar no mesmo degrau. E beber de um trago só. O que ainda não sei é, se recuperará ele a tara.

domingo, 3 de dezembro de 2017

PONTO MORTO





Volto o rio para trás
Das costas lá vai
Disto e só. Lá,
Águas concisas, negras,
Por lhe bater
A noite. Sento.
Sinto. Muito
Acorde imperfeito,
Esgadanhado
Nessa guitarra
Impressa de memória,
Se aproximando, e pouco
Me beliscando
A forma vista
Ao perto.

Novos loucos
No lugar antigo,
Tomando a praça
Construída, se dobrando,
Se alterando,
Enchendo a caixa
Ressonante
De eco suficiente.

Mastigam a pastilha
Dos dias, levam
O casaco despido
Enrolado no braço,
Passam aos pares,
Olá! Se lavando
Em sorrisos,
Falando em saudades
Tuas.

Entre tanto
Aponto àquele que,
Vindo de ali
Ao fundo,
Abre porta
Acende ponto
De luz,
O normal,
Não fosse quem o fez,
Um motor ter
De propósito
Deixado a trabalhar
No meio da rua,
E quem o esperava
Não muito longe,
A arrefecer.

Que isto vos interesse,
Não. Nem isto é trama
Que se desenhe
Com alguma calma
A mais,
De encontro
À perna traçada,
Evitando olhar de frente
As circunferências
Do azar, iluminadas
Pelos candeeiros
Em branco
Sobrando à noite.

Nitidamente se ouve
Discutir sobre
Horários não
Cumpridos à risca;
Por um fio,
Quem nos avisa,
Aguenta os cavalos
À prosa, segura com a mão
Aquela porta
Meia aberta.

Lugares de ofício
Com gente dentro
Muito fora ainda,
À vista desta rua
Que os estranha
E deforma com uma
Longa eucaristia
De reflexos. Sentados
A laborar para o boneco,
No último dia
Inútil, de mais
Uma semana.

A volta perfeita,
Embandeirada em arco,
Dada à pedra
Do edifício
Em boa
Altura.

Meio arco e tanto
Tapado por uma árvore;
Um instante
Disto apenas
Um quarto
Visível,
Ao passar por ali
À frente
O autocarro
Preso à rede
Da madrugada.

E o motor,
Caralho,
E o motor,
Se não é ele
O mesmo. Fico assim
Achar. Um meio
Fio de urina
Reflectindo o sentido
Contrário ao ponteiro
Das horas.

O vento despega
As imagens ao tempo
De serem réplicas de
Um pouco já passado, já
Não aqui
Me apanhavas;
Ramos de árvores
Desfigurando
Ao segundo
O barulho que
Me rouba olhar.

Passas a correr
E há ainda vida
Nisso. Meu igual,
Sobre ti
Aterram asas, frias
Coberturas instáveis
Puxando a linha
De terra para dentro
Do momento, para fora
Da tua boca
Escorre espesso
O fumo do que há
Em ser
A manhã. Flâmula
Desarticulada,
Turvando o entender
Aos calceteiros
Do caminho mais curto.

Superfícies de contacto;
Máquinas de sentido
Único, desaparecem,
Silenciosas, pela corete
Da voz que as anima.

Em caixas
De luz, onde
Mal se percebe
A palavra
SAÍDA, à cor principal
Do olhar indo
De branco, o que nunca
Com nada
Se casa, forçando
A curva à pergunta
Que se planta
Em volta, disposta
A tudo.

A condição adversa,
Climatérica, falo
Agora a frio, é
A pontada romba
Inclinada pela unha
Me arrancando ao sono
Deste dia sem princípio.

Me defendo
Com um punhado de:

Notas musicais,
Traçados de condutas,
Enfiamentos de condutores,
Juntas betumadas a parafina.

Este sistema forjado
À demasia de um voo
De curta distância. E
Vou andando, se
Se não importam.

Patas felpudas, tesouradas
No horizonte. Um olho,
Quem o tem
É soberano verbal,
Fechado em
Espaço aberto.

Liberto o cão na caça
Aos ouriços nocturnos, ele já
Não está nem aí, nem cabe
De contente, desaparecendo
Por detrás da sombra
Das árvores banhadas
Pelo zinco da lua. O chamo,
Não vem mais.

Rilho os dentes, e
Durmo. Se há sonho,
É lá fora.

Espalhadores de poliuretano
Superficial, queimando
A hora pulmonar, indo
E vindo de longe
A longe, dentro do mesmo
Quarto, avivando
Os veios à madeira
Do chão,
O preparando para outro
Inquilino, insensível
À loucura da máquina
De afagar e ao forte
Odor químico
Que permanecerá até
Que se vá embora. Insensível
À vida, vai
Vivendo. Em bruto
Conjugar da palavra
Solar.

À guitarra, um solo
À terra.

Virá o dia, e alguém
Não atenderá
Por tanto
Entender.

Avisado estás,
Apita ou
Guarda essa moeda
No bolso;
Estás convidado,
Para um copo ou coisa
Que o vale,
Mais forte do que
Eu.

Coçar o piolho, levantar
A casa do estorvo
Em que se encontra,
A levando ao grito
No interior da tela
Esticada.

Floresta sintética,
Barbatana dentada,
Dedo em riste – fechar
À chave
Estas formas
Na estante do sentido.

Arrastam os pés
À mesa de encontro
Aos meus ombros;
Se rompendo em vermelhos
Circulares, me cantam
Aos ouvidos um fraseado
De fantasmas repetidos
No ecrã das coisas
De se apanhar
E deixar.

Uma palmada nas costas
Ao tempo mesmo
De um nome ser
Empunhado por quem
É, oferecendo
À consignação
Do meu parecer,
O movimento de serras
De corte
Fazendo o giro
Algo tarde,
Aos crepúsculos interrompidos
Por gargalhadas velozes.

Pitch control,
Self control,
Pest control.

Do estrangeiro que me sou,
Estas palavras enxovalhando
O contorno crítico
Da urbe à memória
De um qualquer
Arquitecto agarrado
Ao passado e á maravilha
Deste aquele
JUST ONE FIX. Por ele,
Nada ficará
De pé.

Se envolve o segredo
Em um pano estampado
De brancas aves,
Artificiais enteadas
Da porção geométrica,
Alienígenas.

Param as mãos
No vermelho da superfície
Eléctrica, para onde
Me inclino, traduzindo
Sons impossíveis, saídos
Do núcleo fremente
Àquele realejo abandonado
Sobre a paisagem
Do pensar.

Pássaros pilotos,
Tocadores de ar pesado
Ligando os pontos
Pelas costas
Ao Absurdo.

Máxima incongruência,
Mínima influência.

Dependência total, delirando
De infinito acabando
Por dar em
Louco melhor, melhor
Assim.

Jogos de arcada,
Diálogos e vendas
De garagem.

Roupagem que encolhe logo
No lugar do pescoço, e um
Colar de rebites
Directos à pele, são
O ornato de
Que não
Prescindo.

Flores enrugadas, travestidas
Em forma
Singular, sem modos
Pousadas
Na sala de estar.

Uma ampola de coisa
Nenhuma jogada
Como trunfo,
Ao tapete
De entrada
Na habitação do personagem
Ditado ao comum
Dos mortais.

Me caem todos
Os parentes à lama,
Patinando. Vão
Uma última vez
À terra,
Matar saudades
Da jardinagem artística.

Matar, sim,
A junta aos ladrilhos
Do argumento atravessado
Na garganta, disposto
Cintando a mestra
Impossível de aparelhar.

Em plano inclinado
Se destravando, descaindo,
A viatura
Assombrada, vai
Certa hora
Em ponto
Morto.

Como que afectado
Por trembolona ou
Banho de zinco,
O rosto fica
À banda, em sentido
Desfigurado, enquanto passam
Pelas brasas
De uma leitura.

Venha o diabo
E escolha,
Quem de nós
Melhor tinja, a
Acrílico seu,
Pardo pranto.

Sejamos breves pois
Nos cai em cima,
Não tarda,
Novo velho
Dia.

Luzes de presença e
Trepadeiras sentimentais,
Murcham, escalando
Pelas paredes. Alto
E bom som,
O que não puder
Nunca ser dito.