segunda-feira, 30 de outubro de 2017

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS VÃO DAQUI A NADA






Linhas de alta tensão se vão ligar ao horizonte. O sol se apagou já, se riscou dele o vestígio de lá, longamente, até à diluição. Fora de tom, o comboio suburbano sai, a horas, nos levando a olhar, olhos nos olhos seus, vermelhos de artifício. Para trás mija a burra, nos afastando, com sua diversão, do nosso caminho. Adolescentes perfumosas, lábios incandescentes, de uma só pelica de tintura, acrescentando pouca espessura ao corpo dito para fora, começando por ali a sair, alinham-se, ao meu lado invisível, tirando à vez o retrato de si. Atrás de si o fundo começa lá, que, se começou, não se deu bem por ele a explicar, à primeira frase. Daqui uns dias, mais mortos que vivos, ainda a semana irá a meio, sobrar-nos-á um único sorriso a meio gás, a mim e a ti, isentos de sentir o que seja sobre tragédias.

Governam-se bem, esses que nos governam; faz de conta se abre conta, fincam a baba do discurso vazio no baço de quem os suporta ainda assim. Falam sobre nada que não é connosco. Dizem pouca coisa, pouca terra. Abrem fogo sobre a inteligência de quem anda cá anda, assim-assim. Sim, mando dizer que não contem comigo para a discussão, hoje não vou jantar a casa. Deixem o que sobrar no forno, ou comam tudo. Se lhes correr mal a confecção, cheirar-me-á a esturro quando melhor me convier. Tudo se deixa arder, que nada é com eles, apesar de afirmarem convictamente que é tudo seu. Morreram deuses e reis quando calhou, não morrem mais se cada vez menos são? A acção do acaso, conjugada na primeira casa da primeira pessoa, irá romper com o costume de comer calado. Porquê? Porventura acreditas que a palavra não mata? Mata sim, se riscada na jugular posta à vista pela mão que a aponta, palavra ponta e mola a atravessar o chão que desaparece sem dares por isso. Senhores ministros e respectivos enteados, pois é verdade que vale tudo e o azar acontece. Acidentes? Não há, para isto, unidade de medida. Esta terra vento e vínculo, pássaros, e as árvores do costume, de onde venho, largando o passado passando à memória, é tudo quanto tenho de haver. A vós, nunca vos respeitei. Para mim, nada mandem vir. De vós, nada espero. De vós, quero a distância segura da nuvem prima afastada o suficiente para que não enlouqueça por um instante e tenha a sorte de um de vós passar ao lado. E depois, logo se verá o que se não sabe. Alguém se desgraçará, dando o exemplo a quem precisa e tem vergonha. Alguma força será ainda a tua, ó tirano sem parentesco algum à minha febre, que desviar me fazes da frase que ia lançada. Ficamos por aqui, morreste para mim. E hás-de morrer para os outros, cedo, não venha ela tarde. Ficas de castigo, enquanto acontece o que está para vir. Ficas aqui, e só de aqui sais quando eu to disser. De política, é tudo.

Dizia eu das moças, que sorriam. O caldo entornou, e a terra ardeu. É tudo. Cada vez tenho menos espaço onde ir gritar que vos desprezo, ou só gritar. Pensava ir. Agora mesmo, parecia isso ser o que havia para andar. Quase nada sinto o tempo todo, depois choro sobre desconhecidos, sobre quem me não é nada. Só isso. Chega bem. Sim, as moças onde as largaste. Riem, tem graça. Rimo-nos todos, se nos contam bem a piada. O resto não conta quase nada, nem à força de matemática. Eu sou um só, não me divido por dá cá essa palha. Riem, de nervoso miudinho. Uma à outra entre si dizendo nunca, por nunca, saio bem ao olhar o passarinho. Chiam travões, chega o comboio. À estação ali em baixo, em se apeando larga medida de gente, se põem a caminho inverso do outro de ainda há pouco. Orquestráveis pevides secas, chocalham de encontro às paredes, enclausuradas em suas cabaças ocas. Ou isso, ou um instrumento a sério, alterado na mão do capoeirista; se soltando a corda ao berimbau, ameaçando o eclodir da dança no seio do grupo. Ainda não é o tempo, parece. Têm-no tão controlado, pernas para um lado, braços ao outro e a cabeça na lua. Não têm é ninguém, que pare um pouco para os ver. Não liguem, dancem pois. Falem-nos de iemanjás de águas turvas, ou das bestas de vistas claras. Ou calem-se para sempre, lutando entre si. Nada há, já, a perder. Vozes maquinais, mulher e homem. Corpos grávidos, de vários meses à míngua da vida, grávidos de fadiga. Podias ser tu, ou eu ainda. Não somos. Nada. Assim. Entalhes de morte pela pedra, alegorias de fazer a vontadinha aos outros. Eu não, e perco sempre. Fodam-se. Dure o que durar, foi demais. Não há fome que dure por muitos dias, nem vontade em fazer por isso. Comes e calas, às escuras. Não foi para essa noite que tudo ficou mais claro. É sempre sobre nós, que a bainha das dúvidas se descose. Diz do roto o celerado nu; não tem roupas que lhe sirvam, mas há-de sempre andar por aí. Se houver ainda mundo, e este olhar que o ponha no lugar. A fêmea marca seu compasso distraído, batendo a tempo agulha que salta em passos altos; vai calçada de um brilhante metalizado. O motorista do autocarro com destino a ir-se vendo, devagar, até chegar à estação fluvial, sobressai do fundo negro a que está pregado, vindo à frente da luz de presença. Aguarda o último passageiro que entre, falsamente paciente, batendo o nó dos dedos no tabliê do veículo. É outro comboio que chega? Nunca chega. Pára. Se descontinua. Sim, este, e mais gente, o deixaram para trás se sabe já. Vão de maioria, quase noite a fazer-se toda ao piso da tarde que foi, em braço flectido qual pistão mecanizado, acabando à extrema num pirilampo azul. Espelho, espelho deles, qual ali é o mais danado de belo alienado? Eu não conto. Vem você, e explica por suas palavras. Não chego bem a tempo de assistir a um grupo em branco, ensaiando o corpo acompanhado a palmas, cordas, cantares e vento preso, liderados na figura de um profeta micro perfurado pela impureza da incógnita. Arenito. Pau-brasil. Estórias, não de aqui, se intrometendo à confissão que, aqui, se lavra. Tudo é outra coisa, não acontecendo agora. Dás por isso tarde, e não vais assim tão atrasado. Dás as costas. Vaivém. Pau-preto, corrente de ferro, pele curtida, fio de telefone, braçadeira de plástico, corda de nylon, isto tudo à escolha nesta hora do avesso que é a minha, sim, e só, sim senhor, meu dono e perfeito ninguém, cosendo a bainha ao silêncio, ao quero eu, oxalá, que tudo vá para o inferno. Palavras parecidas com palavras de outros. Tudo nosso venha a mim. O que é só meu, construído de pedra solta, jogada à forma, emassado de fel compósito. Diáfano procedimento, o de encafuar dedo onde só tem olho. Metamorfoseia-se-me o sotaque de vários portugueses, nunca suaves, dos lugares onde estive, dos lugares onde quase cheguei. Não perdes nada com isso. Chega outro comboio, sim, e se ainda aqui estás, não te admires. Gente sai daí, vão direitos a seguir uns aos outros, daí vieste e ficaste de lado, certa fiada trinta por uma linha de mosaico, pondo um pé primeiro no que sobe de escada automática. Chora criança, vem autocarro, vai a passar outra composição que não pára por aqui. Seu destino de alguns é desconhecido, e outras coisas não.

A dama pedia, ainda há pouco, e a última palavra foi dela, para que riscasse eu a lista das compras. Funciono assim melhor às vezes, pois vou direito ao que devo. Anoto, sublinho, repito o que está na folha de serviço do dia anterior, neste mesmo dia que quase acaba. Levantar a obra, acompanhar um ou outro trabalho, medir o espaço em unidade, cortar a água à entrada da habitação, procurar a imperfeição no que parece bem construído. A lista não está completa, não; pois, se para ela nada se deu ainda. Me distraio muito por menos de nada. Estanco a correria do pensar, a estes pesos-pluma habitantes de um sonho de exterior acontecendo, indo ao ar, da rua, e me concentro na tarefa do pôr e dispor, que bem irá ficar, esta parte inteira de prosa concreta, precisa, material, com o texto a soltar um rasto de solidão só por existir. Ela vai achar sua piada, e por ela não falo. Vai sim, oh se vai. A saber, para que não nos esqueçamos logo mais. Quando estacionarmos no parque subterrâneo, sorriremos um ao outro, cúmplices, por termos chegado ainda a respirar ao fim de mais um dia, descansados pela criança em comum deixada em lugar seguro. Nossas mãos em nó de se soltar quando for preciso, e nós em atravessar a porta automática dando para o interior regulado de temperaturas do centro comercial. Um de nós perguntando ao outro se tem moeda que dispense, tenho sim como resposta, dar em mão, e levá-la à ranhura aberta na estrutura do carrinho de compras. Sempre vamos a falar rápido, a nos despachar a ser outra coisa. Já disse, e repito: a maior parte das vezes, até nisto encontro alguma piada. Vamos para aqui assim, nesta parvoíce, namorar para os corredores do supermercado. E não me ensaio nada de, num repente, levar mão aos teus seios fartos, no meio dos olhares dos outros sem querer, e dizer em voz alta aos teus ouvidos que te quero. Foder. Tu sabes, amor, que é fome que nunca acaba. Que coisa bonita para se dizer, dizes. Desato a gargalhada, quando me apontas como o último romântico. Me perguntas, paciente, pela lista. Não a risquei ainda, ainda não foi preciso. Só lá vamos onde aqui te digo, mais logo. Confirmo o relógio, ainda há uma hora para aquilo que tiver ser, e isto assim se dá não muito à pele. Quando for essa hora, digo. A ver, se me não esqueço de nada. Aponta aí. Não sigas nenhuma lógica especial, mas sim a necessidade a cumprir e rematar. Por outras palavras, embalagem de detergente para a roupa, confere uma unidade, palete de leite, confere uma unidade, pacote de manteiga, confere uma unidade, caixa de chá preto, confere uma unidade, caixa de chá verde, confere uma unidade, palete de iogurtes naturais, confere uma unidade, garrafa de azeite, confere uma unidade, conjunto de latas de atum, confere uma unidade, saco de arroz, confere uma unidade, saco de massas, confere uma unidade, caderno preto, confere uma unidade, caneta azul, confere uma unidade, saco de fruta, confere uma unidade, saco de café, confere uma unidade, conjunto de rolos de papel higiénico, confere uma unidade. Carne e peixe nos dão os pais, que são uns anjos respigadores. E ganhamos os dois, sabemos, o que nunca chega. Se aqui tudo não estiver, não te fatigues e transtornes, passa pelos corredores que já conheces, olha de esguelha só o que preciso é. Roupa interior, não. Lâmpadas, não. Interruptores, substituir só em caso de, não é para menos, mau contacto. Se comutador é, a duas lâmpadas, uma que seja que fique acesa, já não é mau. Está tudo ligado na cabeça, por qualquer estranha ordem. Sendo preciso, sacas para fora as teclas brancas, descolas o espelho, desaparafusas o mecanismo, libertas os fios – o castanho é força e os dois pretos, neutros. Fazes igual ao que está. Replicas. Para a criança, que nada falte ou lhe falte pouco para que seja feliz. Ainda há dias lhe comprámos calçado, amanhã será roupa. Quase tudo lhe deixou de servir, durante a última estação quente. Tão grande pulo deu. Sim, acabo, que estás por certo já à minha espera. Não é assim tão mau, que perto estou, aqui ao lado. O que se ganha com isto se perde em pontualidade. Também te amo, se por acaso der jeito. Até já, meu amor imperfeito. Depois te conto como foi, verás por ti, por detrás ao que foi dito nestas frases. À mostra quase tudo vai, que não ando cá para enganar ninguém senão a mim mesmo. Era o que faltava, e falta, sim, ainda, ir comprar cigarros, que se me acabaram. Parece. Clássico desvio. Chego aí já, num instante. Cheguei. Vês? Agora, antes do combinado. Que sorte. Afinal há tempo, metade ainda de uma hora. Não sei o que me deu, de há um tempo a esta parte. Chego sempre cedo a tudo, eu, que acordava só, quando já tinha de estar em lugar algum. Corria, corria e, parece, nunca lá chegava. Acostumado de atrasado, aparentado de ausente crónico. É certo que, depois, em jeito, torneava a culpa com a razão do paliativo. Sólido. Coitado de mim, uns cabrões sempre os outros. Deu jeito, não dá mais. Corro ainda agora, não me canso menos, mais ainda, mas prefiro ser eu quem espera. Não quero ficar a dever nada aos outros, muito menos tempo. Já cá estou, amor, e de propósito, não to digo. E sabias já, de outra frase, que falta me faziam os cigarros. O estacionamento subterrâneo, nesta hora morna, tem a calma necessária à montagem dos absurdos, uns pelos outros se dão melhor sem plano, com uma ou outra vítima à mistura pela pena. Alguém. Fazendo viagens a pé até junto do veículo, um hábito fechado a sete chaves, certo de si, abrindo com músicas diferentes, diferentes portas. Alarmes desactivados, ignições experimentadas. No seu posto. Mais do mesmo, em suaves prestações, não te queixes depois. Conta com alguma coisa, e a mais não és obrigado. Comigo nunca contes, pois posso estar ou não para aí virado. Dadas as mãos, lançados os dados, fomos por aí ver o preço às coisas. Do que precisamos afinal, senão de mais tempo? Mais tempo, para um de nós se encontrar a meio da ponte lançada de boca pelo outro. À mistura com cartão vincado, aromas artificiais, e o vidro das coisas que afinal são outras, nos mostrando deformados à superfície do assim existir. Regámos já um momento de azeites virgens, vens de volta. Dá-me um segundo, tu, que ainda há pouco te não cabia uma azeitona no buraco do cu. Te gostando, te cravei um dente e, olha aí, te chamei um figo. A dois passos, o desejo é o vizinho nunca se vendo chegar, mas se fazendo notar pondo a casa a trabalhar. Escolhes a lixívia, como quem escolhe jóia ou fragrância, mirando, de alto a baixo, seu rótulo, lhe abrindo a tampa, aparelhando o olfacto ao seu gargalo. Escolhes a lixívia cheirando a sabão natural. E passas mal se, a casa chegas e, disto não há. Te sai torta a linha do dia, se por um acaso não tens uma porção líquida desse apagador de misérias, para o atirares ao esmalte da banheira, à louça sanitária, bidé sanita e lavatório, à cerâmica que pisamos.

Outro dia ou pouco mais tarde vens, pequena, a medo, pedir que te rode os brincos nas orelhas furadas de fresco. Condutor guiado pelo teu sorriso, acedo à ordem de avançar, de te apertar nas costas o vestido de brincar às galas. E vais, brincando, solta de mais crescer, às casinhas de estragar. Baixo a guarda aos olhos, te chegas à frente, com outra roupagem que te coube em sorte escolhida a dedo. Trocaste de personagem com outra menina da mesma idade, e nem com uma sequer fala baptizaste a anterior. Não há um nome de que te lembres de entre todos os prováveis, mas lhes chamas todos os nomes que eu sei. Dizes, que falta te faz um acessório, vais, vens, com uma carteira quase pele, negra, a tiracolo, abarrotando até ao fecho de notas de um banco a fingir. Na sala ao lado cantam, e contam metades de estórias que, comigo a somar, não dão resultado. Peças de madeira, com desenhos berrantes de bonecos diferentes; encaixando-as, sai um número. És a primeira a dizê-lo. Fizeste já, o um e o dois, um pássaro fora de mão saído ao céu, um par de botas e um gato brincando ao rato. À terceira, decididamente de vez e alçado, uma casa já fumega pela chaminé atada de presente, é hoje. Cedo te fartas, meu anjo, da distracção, e sais a correr dizendo para eu ficar. Até já, pareces dizer, enquanto te afastas, a sombra mal te acompanhando. Voltas em nada, feliz, pois escolheste para ti o jogo do lobo. Plantas cogumelos, em pequenos montículos ao redor de árvores sem copa. Colhes flores, para as plantares do outro lado da floresta. Fazes a cama com tempo, ao bicho preso à berma da tua mão solta. Pões no ar as borboletas; trincas a língua, tensa, ao manteres o gesto de as animar. Com o que tens à mão, brincas em silêncio. Está calmo ainda aqui, antevendo o distúrbio que a qualquer altura brotará de ti, minha cópia de mim, de outro e este tempo, meu coração a mim atado. Escolhemos cores e esquemas de várias demãos. Ofereço-te água, recusas. Insisto nisso, bem. Mergulhas uma vez mais, na brincadeira. A sério, vestes o lobo de alfaiate; estranhas não haver mais com que o vestir. Aplaudida criação.

Apanhados à superfície, impressos na folhagem, raspados ao de leve por um halo de aparo. Se encontraram agora. Se atiraram ao pano de fundo, eliminada a imperfeição de não haver porta que desse para aqui. Primeiro. Nome de cidade, dia da semana, número ao dia, deste mês neste ano. Alguns outros. Uma e outra ainda, além daqueles, sentados lado a lado. Uma falando à outra, abanando a cabeça, parecendo fingir acompanhar-lhe as palavras. Naquela. Há coisas piores, e dias diferentes. Acabou-se a brincadeira. Fica para aí, animal com raiva, afastando para outro lado os maus desta estória. Despir a velocidade, apontar ao furo do olhar a chuva da noite. Diante do amanhã, tua boca julga que está. Eu e tu em nós. Levem-nos daqui. Dias contados, unhas compridas. As sombras, à transparência, coagulam o espaço de se levantar. Pões a arder outra casa, no mesmo cenário. Sou a tua puta, não sou? Me dizes assim sempre, já em brasa. E ainda não sei a quem hei-de de falar sobre isto. É sobre essa noite passada por nós, sabes? Encafuam arquitectura em espaços arregaçados ao não haver tempo. Ferida a beleza, me ponho a andar. Um copo de água, sobre a vidraça da boca. O espelho quebra, de tanto astro que lhe cai em cima. Depois se foi, da hora para um bom quarto. Consome-se o que foi carne, espessura de contacto e correcção de dioptrias. Espontânea combustão da memória, no trocadilho que se esfuma de imagéticas. E como se arde, à vista de todos. Parte de mim é cinza, à outra parte mando vir mais um copo de água. Estanco um pigmento de cor, à ordem e desmando deste olhar de todo espectro. Sou a própria Mata dos Medos, e menos não posso com a própria sombra que me faz refém de superfícies onde tocar. Sem te anunciares, me entras quarto adentro e, mal respirando, é o bastante para te denunciares à minha concordância de fios em contorno. Despertas meus monstros desavindos, suspendo a eles o ofício do sono, em franco golpe de aríete. Mal abro os olhos e vejo quem és, acalmo. Dissolvo os tendões. Volto à noite de interiores. Assobio para dentro, devolvo a alimária ao espaço fechado da minha ânsia. Deito os bichos na berma do nada, puxo-lhes até cima o lençol que os esconde e lhes desejo bons sonhos. A insónia nunca me foi um lugar. O sono sim é protecção ligeira, quase verdade. Venho a dias, aos caídos, como insuflável de boneco abandonado na época alta. Ainda algum ar e corpo, nenhum curso de água. Chão de cidade. Estacionado onde me estampo, acelero o olhar para ir onde não posso. Travam à beira. Param. Semáforo vermelho. Um lado. Andar do outro. Anda tudo ao mesmo. Au Revoir Simone, ou outro nome que te caiba.

domingo, 1 de outubro de 2017

SALMOURA






Vento e margem. Insisto nisto o vento, vento vaivém forte como fala, fala só. De perfil, minha forma de dizer sobre isto nada disso. Deixa. Deixa-os falar, assim vento e água, tira-linhas, matéria solta a nada se agarrando, fora de mão. Alto lá, logo ali, por cima do ombro a chapa da lua se pregando ao céu só metade, da luz que pode dar agora não, deu mal, se dá por isso e só isto de vento e vento, se atrasando um nada neste rosto que se atravessa nele, pedindo a ele a esmola da direcção por onde me perder indo atrás. Não é isto exercício de estilo, é antes de mais tentativa falha de equilíbrio; em cima do joelho o caderno preto querendo levantar, montando as folhas asas para ir tudo ao ar. A mão que nada escreve doendo, segurando o que não tem peso para aqui ficar. Os cães desta hora soltos, na berma terminada a despachar. Pequenas ondas, pequenos nadas, saem repetidos na geometria branca da espuma em grinalda, vestindo o calhau de união ao lodo. Sejam um só. A tarde se acabando, bruta e crespa, em um só pássaro passando à frente do olhar. A estação do meio se aproximando à baba do sentir-me abandonar. Línguas de terra, apontando um caminho impossível por dentro do rio, entre cá e lá tão só. O tom da memória rubescente que fica deste sol que já não é de hoje, estampado nos batelões abandonados à má sorte, fora da corrente que nada prende e tudo deita a perder de vista, à atenção de poucos, eu e alguns. Quadro preso por teias atirantadas às veias entupidas por tanto vazio. Minúsculos bolbos de luz artificial, criando o horizonte da cidade aos olhos de quem se fica pelo outro lado. Batendo por minuto o que tem de bater, enganando pouco mais que a morte, o coração faz de um ciclo inteiro a muitos, nada entretanto acontecendo, como se tudo na mesma ficasse e mais nada houvesse do que dizer. A escolha sempre minha e só, entre isto e um copo cheio, adulterando ao espelho a meada do corpo. O holograma de todos os imperfeitos amores tidos numa vida até aqui, se equilibrando no cais por entre sorrisos amarelos cuspidos pelos candeeiros já acesos ao princípio desta noite que nada resolve para já. A leitura tremida do que sou em tentar ser, fui ali e já venho assim, foi vindo a jogo logo agora, sobre o pano rasgado do presente, e pouco mais. A demasia incerta do que fica. Algas descobertas à superfície, mordidas pela mesma luz, se fremem, mostrando como é isso a tal mudança de direcção num repente, tão bêbadas que estão mal se tendo de pé sobre a pedra. Sombra de nível, ainda estudando o que fazer à espessura do em volta, massa para engrossar o gosto ao dedo de quem mal se explica. Sei então quando devo parar, mal sobre a palavra dada ao branco da folha se sobrepuser o desenho negro da mão segurando o aparo, tremendo de velocidade imprecisa. É hora de levantar de aqui. Antes de o fazer, acender um cigarro a mais, assentar tinta ao lado do arraial do corpo; pelo contorno, desenhar de lados desiguais, para ti só, meu somente amor, o espaço onde se verá implantada a salmoura de minha boca conservando ternos teus dedos, os que couberem aí, que aponto e aperto de encontro à minha garganta. Levanto e vou por pouco, me escondo na lateral deste acrílico translúcido, escovado por abismos planos, circulares. Colo à face disto a isto um papel perfurado de mau gosto, impresso em letra de gente, dizendo por estas palavras ESTIMADOS CLIENTES, INFORMAMOS QUE ESTAMOS ENCERRADOS. Obrigado, eu. Na origem, o que primeiro se põe à frente de nós é ponto final. Largamos depois uma frase solta, por entre muros mais ou menos altos, e cá vai disto se arrancamos raiz a este número fazendo de conta. Tens uma pedra pesada à mão junto aos pés, e logo o primeiro uso que dás a este costume, é veres-te por um fio a ela agarrado, dissolvido num líquido sem princípio. Por fim, venha quem vier, e como demoram! Nada se pode fazer de diferente em frente a ti. És osso e espinha àquela parte, que se deposita num passeio de porcelana barata. Parte a pouca louça que tens; come com as mãos, de pé, o que houver para a refeição. Não sejas esquisito. Corta um tomate ao meio, atira para aí umas quantas pedras de sal, leva à boca um vermelho de que tanto gostas de repetir, escorrendo de memória, ou cingido ao croché do teu corpo escuro, tão desejado se não houver outro mesmo. Enquanto durou isto, é já noite pois, passando seu atilho por ilhó ao pano descido de um tempo de acabar. Se amanhã houver, logo se verá e cuidará do que ficou ali para trás. Traz agulha, dar-te-ei linha e giz para a larga medida do fato que me queres vestir. Nu assim, sou outro tronco desatinando terra e água, árvore oca, refúgio para pássaros e segredos ditos de boca calados à face do túmulo de nossos semblantes. Digo-te já o que houver em dizer, e não te chateio mais. Não precisais jurar sobre seja o que for. O barco atracou, batem cancelas à passagem de quem vem, são ainda assim muitos para esta hora, e tu não estás nem aí. Hás-de cá vir.

domingo, 17 de setembro de 2017

GATEAR A INSÓNIA





Ao relatar o vento, se esqueceu da sua bandeira. Mistura as cores ao ar, sobre a régua do rosto. Inflecte, incisivo, na espessura primária – material cortado – da alma para aqui assim. O roceiro dos hábitos assume o trono do peito, como o ponto zero da loucura sem programa. Crianças circundam o fosso da tarde, levando até aí fiapos de sol à cor da hora que é esta, emaranhadas em nervoso miudinho. Permeáveis ao invisível, sabem músicas de ouvido e as cantam baixinho. Para lá delas, vem a mais uma batida cardíaca, incerta percussão. Ir daqui de vez, sim, toca a avisar. Voz de feltro, desacompanhada da tragédia singular. Luta entre si um, para um, à escala possível para onde são atiradas as serpentinas de um Carnaval repentino. Inimigo de qualquer amigo, o poeta se dilui a frio e fome de maneiras às tantas. Ossos apertados ao encontro brusco de um mesmo material que é a palavra. A chave, imperfeita, roda uma só vez e é para abrir de aqui. Voltada ao mesmo, se abre no mesmo sentido, bate a folha e assim fica. A caução de se ser visitado, mais cedo que tarde, por quem procura, como alguém, a solução doentia do sono para sempre e a carne para agora. Se introduz, por nada ainda explicado, sensivelmente mecânico, no que há-de vir de facto e pano para o corpo do texto. Ainda agora é nada, e se preocupa já com tão pouco. O comprimento da broca é discussão sem nexo em se pôr na boca de um desdentado. Para lá da carne, se crava a atenção ao pormenor do espaço por ser consentido. Desconseguir dizer a simplicidade de um campo aberto, o olhar passando à clandestinidade difícil do pensamento, se abrindo em duas a verdade nas juntas do chão. Lancis. Ervas aromáticas. Muretes de lama até certa altura. O sol, cobarde, vira as costas ao entender que, iluminados, certos planos dispostos a nada, e ninguém, dizem menos aos olhos que a escuridão total. Tanto horizonte para a tão pouca serapilheira das mãos se cruzando em cima em baixo, iludindo a morte com o boneco de si mais que um, dispostos a tudo, sobretudo a lançar mão aos dados, abrindo no corpo chagas a propósito, para aí dissimular a superstição, passajando por fim a pele com a destreza do cínico. Ponto de cruz. Ponto traço ponto. Ponto de referência. Ponto de orvalho. Ponto final. Neste ponto. Ponto de vista. Ponto de discórdia. Ponto. Pesponto. Pôr e dispor. Cruzar os braços, sobre a frase decisiva. Não dizer nada, ou mais nada. Pensar um nada. Dizer tudo. Ponta e mola. Levar a mão mais rápida até ao outro, ferir de vida o peito com o lume do metal gravado na forma tentada, esta geométrica lacuna de entre os deuses sem tema e espírito santo, levados dos ventos, dizendo o céu às coisas de se tocar. Vim até aqui falando, falando, virando ali atrás, metendo pelo beco saindo à praça, descendo degrau, chegando ao rio. De aqui não sei voltar. Passa à frente. E verás que nada disto sofre assim tanto de enformação. É o número que sai uma vez, que se risca da folha dobrada em muitas. O que sei, quase nada, mais não é que a cabeça de um fósforo se consumindo rápido demais num só, o mesmo de sempre, pensamento: MORRER PARA MAIS VIVER.

Se desocupa a casa de palavras compreendidas, se toca a dedo o pó da estrutura que nos divide do céu, se dá uns quantos passos em qualquer direcção até não haver altura para ser um em pé, se pica o palato com a treva, se argila o olhar com a vida a correr à frente do outro em si. Risca um dizer se necessário, vai para os cantos sentir a esquadria ao absurdo, cospe a prótese que nada morde (pechisbeque de rilhar matéria processada), conta os espaços marcados a giz, antes do diz que disse solar, desse suão se anunciando para lá das esquinas vincadas. Se é quadrado, marca os lados, se é triângulo, crava seu ângulo na garganta e tenta dizer ao mesmo tempo qualquer coisa que o ocupe, enquanto perfuras teu véu de ligação, com as matemáticas impossíveis de se fazer de conta. Volta só em caso de ser mesmo preciso. Não digas ao que vens, não digas nada para além do estritamente necessário à manutenção deste desconforto retornado. Esta é a prosa dos malditos e ainda assim nunca explicação para coisa nenhuma. Rasga o invólucro, tira de aí a gaze perfeita, branca demais, algodão dos aflitos, chega-lhe o vinagre que tiveres à mão, dobra um canudo e tampona os ouvidos em estado miserável, calcinados pelas primeiras chuvas das convenções. Com a maceta e o ponteiro, descobre o que é de ir abaixo. Com a tua certeza nada se faça, senão deitá-la para dentro de um saco sem fundo. Há pois um céu desfeito em aparas, combustível para pássaros desnorteados. Tatua a rosa-dos-ventos onde a vejas, sopra decidido para o velame do veículo que utilizes. Terra, mar ao ar. Esquecer o que é círculo, deduzir a natureza pela coerência dos materiais perecíveis. Trabalhar à jorna, o indecifrável. Acompanhar a matéria o mais desumanamente possível. Chamar de volta os animais de corte. Levantar o cerco, que não mora já ali ninguém que te interesse. Monomaníacos, são os únicos que temos como conhecidos. De dentro vem uma espécie, quantidade finita, de objectos espontaneamente deformados, pau para toda a obra, firmes no seu segmento sem caminho. Ao deixar-lhes nada onde assentem, sou eu que vou primeiro. Rejeito a imobilidade da coisa com raízes. Gasto este mar e outro na erosão forçada do teu ventre, esta boa razão para desejar nunca ter vindo aqui parar. A distância devia ser ensinada com umas quantas pedras à mão. Estamos mais perto de nunca chegarmos a vias de facto a nos conhecer. Antes isso que uma perna partida.


Jogar o que falta perder. Gatear o tardoz da insónia com fios de cobre, e matar a noite ao tempo, voltando atrás com a palavra dada por instinto. Menos é sempre menos, agora. Ou nunca. É. 

sábado, 12 de agosto de 2017

PERMILAGEM








Ressonas no quarto ao lado; tua boca expulsa, íngreme, a maré negra dos sonhos pesados. Pesponto. Pousa uma varejeira na mão contrária à escrita. Os ponteiros do relógio, além barulho, projectam a sombra do tempo de encontro à parede branca do seu mecanismo. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Mão cheia de certa distância passando a ser segundo. Em primeiro plano, o murmúrio continuado da máquina de fazer frio atando o existir por dentro desta tarde quente e sem razão. Ressonas, e levantas as bielas dos pulmões ao desencontro da voz apagada. Abres-fechas o leque dos ventos, junto do rosto amarelecido pelo enfado. Dás voltas e voltas ao chão frio onde vais deitada. Barafustas com ninguém, invertes os polos à posição do corpo, em nenhum lado dele estás confortável. Amortalhas o corpo com o lençol branco da saudade. Acentuas a estria da fala dobrada, posicionando sobre ti à mesma, em qualquer lugar do corpo, a quadrícula denunciadora das tuas formas possíveis. Me dá a vontade, levanto e vou à casa de banho. Enquanto afino o mijo ao diâmetro da lâmina líquida, noto um vento feito de outra maneira. Vem vindo, ligeira, a varejeira rente ao chão me contando dedo aos pés, se enganando várias vezes depois na conta deles, trocando o lugar certo da porta que a vai pôr fora de aqui. De si. Interrompes a respiração, abres os olhos e me levantas a mão, ligeiramente violenta. Conquanto o rosto não desviasse a face para o encontro com a parede do punho encerrado, voltas a ti. Arrastas a cadeira para junto do que és, acertas o contorno do teu vestígio com toda matéria móvel. Sossegas. Viras as folhas do jornal de qualquer dia, em solta brutidão sequencial. Pronuncias em alta voz, refeição farta de azares seguidos. Apontas olhar, ao caminho feito das arestas vivas dos vários passados que por ti passam, tu que vais sendo deixado para último, ao sabor do tempo de contar. Um dos últimos sou eu ainda a poder dizer te, malquerendo. Ressonas. Te estás marimbando para os jogos de água postos em cena pelas mãos em volta, em franca magia de desaparecerem por detrás das costas, dizendo por outro lado presente à criança que escondida está se sabe lá onde em nós brincando, os sem terra à vista. Vais descalço lá para fora, por aí fora a contar caixas cegas, enterradas por outros, por onde passam todas tuas merdas. A cortina, em sentido ao vento, promete sombras ao paramento de proximidade. Restam apenas algumas horas de luz. Pássaros atravessam ar e tempo, rasando a Via Rápida do Homem. As árvores, à vista, libertam o teatro do gesto, passando palavra aos arbustos rasteiros – apunhaladas, apertam o nó do corpo. A tampa da caixa do correio, em fino recorte metálico, solta sem estar fechada à chave pelo ocupante ausente, se sincopa de ritmos e vertigens, levada nas palavras do vento. Estar sol, num dia que não é brilhante, dá igual. Alguém por quem se espera já de antes, continuando sem aparecer. Pousa o que tens entre mãos, no chão. Paciência. Espera um pouco, ou desiste já de o fazer. Até onde os olhos se perdem de nós, valor que fica a favor da casa, se vê que nada há dessa novidade de se ter a certeza de que se falhou por milésimas. Agora nada. Começa então aí, quando eu te começar a contar. Isso mesmo. Acabou só. O que está lá atrás. Já se mataram ou ainda? Esqueceu só já.

A preta, medida nas laterais ao centímetro e erro mais que suficiente, pelos homens a seu lado na paragem. Se deixa ficar, passando todos à sua frente, quando vem o autocarro. Entram lá para dentro, levando o passe ao encosto da máquina. Lá do outro lado, lhe dizendo o que de ontem aqui esteve e tal, mesmo fotocópia desse aí que já foi dela. Homem só agora. Outro tanto de esquisito, se achando de normal só por ir, assim, com mão atrás, nada à frente, às cuecas borradas pela fome, e de aí, gesticular nervosamente em todas as direcções, besuntando o passado tresandando, nas grades do presente. Me cresceu ali, no meio da rua, um sentimento sem espaço. Uma grande merda. Completamente outro, ele não está bem. Ela agora ainda. Se fica sem ideia, se era aquele o número que esperava sair de lá da outra esquina, vindo da terra da Outra Senhora. Lhe faz diferença tão oportuno adeus, junto ao vidro da alma, se entendendo mal com ela tudo e todos. Sabes. Uma vez, era ela pequenina, engordando o nome de Mindinha, a se desenhar nos lábios de quem lá vai, desconhecido de si, no lugar à janela. Juntando o louco ao mais louco, estamos aqui em casa. Podes vir, passa aí.

No princípio da tarde demolir o tardoz da Grande Viagem emitida por um fio, entre tantos, desde o Bairro de Além ocupado por cópias consanguíneas de mim mesmo todo o Ninguém. Dar livre arbítrio aos animais de casa – que fique ponto assente: nunca há, para dentro destas portas, horas certas para refeição ligeira ou cançoneta. Viva! A lagarta na couve. E não sei quê, que não sei mesmo, estou lhe dizer, houve aí uma confusão. Nesse dia dezasseis. A água, elementar. Foi lá no quê. Imagina. Nem já água para beber, as torneiras estavam secas. Passa o dia, não liga. De algum modo alguém, de lado à manhã, rogando não ser reconhecido como pessoa, desconseguindo se envolver dessa fita isoladora tecida com as próprias mãos. Me batendo nos olhos, mão cheia de artifícios, vêm a perguntar se sei eu a que horas abrem as portas da Conservatória. Não sei, minha senhora. Pausa. Quebra. Descontinuidade. Algum silêncio. Volto já. Moita-carrasco. Só lembro que, em outro dia, vi por aqui indo, por aquelas portas, passar gente. Passar bem. Não vou dizer do que me arrependa, pensando bem. Embebedo-me em casa, logo mais noite feita, sem ter onde cair por entre os caixotes até cima de livros aos quais não conheço o dono. Sai daqui. Sai daqui. Sai daqui. Desligo de propósito o disjuntor geral, me aterrorizando com a falta de vistas depois das mãos abanar, toda a hora pedindo a Deus menos maldade. Nem mais se vê a criança brincando de esconde-esconde, por detrás do vaivém do coração. Marulhando materialmente, artificialmente. Esta foi uma cena cá de casa.


Está agora a pagar caro ter, de boca, metido animais em casa, falando cobras e lagartos. Solta os cachorros sobre quem vier. Vão de vez em quando, dar de comer aos miúdos. Ela devia sair de ali. Sabes amor, fico contente por estar à margem de tudo isto, diz-me, de não saber mais do que sei hoje, de deixar cair um sol do meio da folha branca para lá. E deixar não virar a folha com o vento e deixar pousar a varejeira no braço, ficar com a mosca, chegar à última casa da rua e continuar para lá. Está cheia de cabelos brancos. Eu, de aqui, não vejo. Não pintes outro quadro. Está a voltar, que é a casa dela. Não sei. Arranja outra coisa. Ela é mãe do filho dele. Eu não te quero lá. Eu até entendo, mas faz favor. As pessoas podem não sei. Ela emagreceu até ao tempo em que não tinha filhos. Agora fuma. Agora fora. Exacto. Mesmo a sério. Tem de sair de lá de casa. Ela está a fazer uma escolha inconsciente, sempre. Nem que vá para um quarto, que falar é fácil, é a mesma coisa. Pois. Nas franjas da cidade, onde sítios mais baratos, onde não se passe nada aí. Longe de tanto faz. Viver para sempre lá, nós sabemos. Eu sempre pensei de ti o melhor, encafuada nos teus melhores panos, embrulhando a ideia que não se faz de nada ao mundo à volta da casa, de dentro para fora. Nunca ouvimos nós outra coisa da tua boca, pois davas conta da casa. Davas um olho por ela. Mais a mais cegamos, demasiado complacentes com o que nos sobra nada de mais.

sábado, 29 de julho de 2017

ÂNGULO DE ATRITO







Antes mesmo de avançar
Para o quer que fosse
Da obra já ganha
Sem ter ainda
Mexido sequer
Uma palha, sobrepondo
Sempre a arquitectura
Das palavras
À engenharia dos espaços
Que as aguentam. Acreditam
Mesmo que é
Assim? Conversa e tal pois
Por aqui nunca se deu
Outra coisa fiada. Forcei
Sempre o tema, negando
À última da hora
Aquilo que me era
Dado. A bem dizer, de mão
Beijada umas vezes
A coisa se dá
Outras vezes dá
Merda.

O engraçado é
Que sempre penso
Ter coisa melhor
Para fazer ou perder
O tempo, mas não,
Acabo sempre
Por ficar a pé
De encontro à mobília,
A olhar para dentro
Do movimento construído
Por contrários,
Suando pela noite
Abaixo parte desse
Mar crescente.

Esboços de coisas tipo
Nunca minhas, tipo
Isto é
Tudo meu,
De uma forma ou
De outra. Se assume sempre
A revessa da margem
Costurada à medida
Da casa cortada
A direito.

Hoje me deixo ir,
Quando podia
Nunca voltar ou
Demorar a chegar,
Como assim
Deixar esta folha
Matizada de pousio. Sim,
Sem brilho, apenas
O suficiente
De película nervosa
A tapar os poros
À maldade do tempo
Passado, sem sinaleiro
Pelo meio
Do caos veicular
Dos versos sem carta
Branca tirada. Vi
Chegar igual o dia,
Ao fundo lá meio céu
Lambido pela trincha
Solar, levantando
O braço para a hora
Original. Vento e pressa,
Elementos estrangeiros
À pele, só por cortesia
Passando um nada
Pelo entendimento
Do dia anterior. Deste
Vão rasgado
Pela repetição de frase
Feita.

O tempo de um
Cigarro passa
Ao mesmo. Dura
Este fogacho o que houver
De cortiça na espessura
Da boca e vala
Aberta à pendente
Da gasolina inclinada,
A olho, para
Outra frase refractária.

Os infernos de cada um
São as paredes
Levantadas com o prumo
Viciado do Homem.

O tempo da manhã,
Adormece o sentido
Oportunista, exausto
De tão pouca noite
E tanto ainda tanto
Se dá como
Foi assim e tal
Ficou.

Desce sempre
O estore, daqui a nada
Me repito, enquanto não
Sei o que fazer
Aos braços de diferente.

Aperto sempre muito
A rosca da cafeteira,
Por agora está feito amanhã
É que são elas.

Nada nasce de novo ou melhor
Dizendo,
Leva efeito
O chicote sem a tensão
Anterior de um corpo
Esforço ou momento
Negativo. Para outro
E outro dia, deixo
O ferro armado
Na disposição que não devia,
Para que nunca se saiba
Por onde começar
A demolição do meu entrave.

O que se gasta
Em palavras, se poupa
Nos vazios deixados à volta
Dos inertes silábicos,
Sem ponta
Por onde se pegue
Sem ponta
De dor aparente.

Falam tanto
Do nada,
Se esquecem
De que se existe assim
Como se conhece
Desconhecer
Tudo como sempre
Foi. Forte
A água martelada
Pelo ofício
Do sol.

Porquê precisar a hora,
Nítida revelação do caminho,
Quando a dúvida
Acrílica fica
Em branco
Onde vai melhor,
Metida entre a chapa
Da mão
E o espelho montado
À volta de si,
Atacado pelo óxido
Das lágrimas vistas
A se duplicarem
Em outros tantos
Assombros e apertos.

Ainda nem a meio vou pois
O café não ascendeu ainda
Ao espartilho de inox. Me dou
Um copo de água,
Me peço logo
Outro a seguir não
Digo mais
Nada.

Aperto a refeição
A meio do dia
Ainda só
Em possibilidade,
Em duas tiras
De papel. Dou o nó
Ao saco que contém
O apenas necessário
Que me irá preencher
O buxo
Por uma hora
Mais ou menos.

É assim possível
Que se veja
A bom ver,
A fuga ao dizer
Concretamente
Ao que se vem.

Fujo de mim
Sem saber o que fazer,
Pobre corpo de uma só
Assoalhada para tantos
Diabos de corda,
Marcados pela abcissa
Oculta.

Adorador de manchas
Nos tectos. Cobras de sal
Atacando o gesso
Nas sancas. As unhas cravadas
À tua atenção,
É todo o alarme
Que disparo de propósito
Sobre a vida. Sobre isto
Nada mais me ouvirá
Dizer. Da boca vai
Lá para fora. A culpa
É de ninguém.

Um punhado de vento é
O instante falível,
Prolongado movimento
Contornando o perímetro
Da pedra arranjada
Em ti, insuficiente
Construção interior.

Me lembro ainda
De ouvir os mais velhos
Que este era o lugar
Certo para todo
Aquele com queda para
O suicídio.

Maravilhosa elevação,
Alterada sem querer
Por quem a construiu
Com risco, dando
Em miradouro largo
De vistas,
Para a morte
A todo o momento.

Sabem já do que falo
Quando digo que não
Há um tema
A que me agarre.

Ó miserável
Terra comprimida,
Cortada às postas
Pelos ventos e correntes
De ar comprimido
Que alimenta esta
Nossa máquina mais falha
Vai-não-vai
Andando, cumprindo
O ângulo interno
Do despique há muito
Anotado nos artigos
Das boas
Práticas associadas
Ao trolha construtor
De artifícios
À escala,
Com volume
E alguma área
De implantação.

Do outro lado da estrada,
No jardim
Ainda mal manhã,
Um dos dois
Homens presos um ao outro
Pela rotina,
Laçam o tronco
Da árvore mais forte
E à vez se põem
À ponta da corda,
Esticando os músculos
Ao braço. Acabam
Este exercício geométrico,
Metendo suas coisas
E uma viola desafinada
No saco a tiracolo,
Trocando uma ou outra
Palavra já em andamento,
No sentido da multidão
Que os engole
Intimamente
Por debaixo às roupas
Da cidade.

Às árvores, essas
Não se lhes ouve
Nem ai
Nem ui. Que não é nada
Com elas,
Metidas que estão
Ao barulho
Com o vento, falam
Para dentro
E cospem para o chão
Uma ou outra folha.

Já em casa,
Me encosto a este pensar
Que devolve sua própria
Construção no vazio
Às divisões. Sim
Em casa, esta
Casa tão vazia
Uma rua deserta
Pintada de branco
E uma vontade
De pôr nelas,
A trabalhar,
Minhas mãos de carvão.

O chão em espinha
Tornado pó vem
Assentar
Na minha garganta
Móvel. Madeiras
Agredidas por estas
Meias-tintas
Do pensar. Aqui chegam
Por estrada incerta,
Os barulhos dos canos
Dos carros a passar
Lá fora o acento
Grave do avião
Vindo aterrar
Aqui perto.

Sei que sopra ainda
Um vento vindo também
De lá, porque vai
Sacudindo as estopas
Esfiapadas, presas em voltas
Às guardas metálicas
Das varandas do prédio
Em frente. E sobressaltando
Plásticos envolvendo
Janelas novas ainda
Por abrir,
Na clarabóia que se vê
De aqui ao meio
Do telhado.

Travam, a chiar,
Alguns veículos rasteiros
E esta descontinuidade
Que me atravessa
Louca, a jogar mão
Às imagens superficiais.

Fios descarnados,
São o suficiente
De traço exterior
Aos monstros que levo
Junto ao peito
Por dentro. Passageiros
Ruins, que passam pela vida
A ir vir
Sem tirar bilhete.

Tocam a música
Das adivinhas. Paranóica
Forma desistente.

Ainda um telefone
De marfim
No seu lugar
De sempre,
A que não resistem
Mãos e ouvido,
Os olhos vá lá,
Apontando para o canto
A ver se se dá
Por alguém chegando
Perto.

A fita do estore
Tangida por esse sopro
Descrito vai tempo,
Tremendo a sombra
Que dá ora
Direita ora
Espessa ora
Barbatana líquida
Indo bem
Neste oceano
De cal atravessando
O rectângulo
Da ombreira. Seus olhos são
A janela que falta
Abrir deste lado
Em frente ao outro.

O esquentador ainda
Por sair da caixa, não
Sei se alguma vez
O vou pôr
Ao uso,
Esquecido que ando
Das estações, virá o dia
Que é Inverno
E vou dar por ela
De torneira aberta,
O peito a implodir
De falha,
E nem uma
Toalha seca
Posta no prego
Numa das paredes. Sair à pressa
Sem roupas ou ideia feita,
Deste nevoeiro à solta
Na casa de banho,
Que se repele
Com outro banho
De água fria
Pelos costados.

Me sobrou uma caixa
De que falar,
Cheia de mosaicos
Na cor da noite, servem
À última música
Que irei tocar
Quando se conduzirem
Com mão forte
Para o chão.

Esperar de pé
O que vem
Tarde, é
A homilia dorida
Pregada pelos rins
Ao torso da impaciência,
Já sem falar
Desta puta
Dor de dentes
Encravada entre
Molares no fim
Da fiada
Interna.

Abolida que foi
A farmacopeia dos azares,
É de pé que espero
Que tudo isto
Passe e não
Seja mais
Um desses
Mal entendidos
Tão correntes.

Aos barulhos da rua
Ao mexer do vento
Nas coisas digo
Até já, pois
São as cordas
A que me agarro
Para não ir
Desta para melhor.

O que é a loucura
Senão uma habitação
Com mais assoalhadas,
Onde é menos provável
Que não nos percamos? Talvez
Assim não fosse
Verdade não haver
Mais ninguém senão
Nossa própria voz,
E deixasse de ser apenas
Um destino de Verão.

Sejamos sérios
No engano.