sábado, 24 de novembro de 2018

OLHA QUE SEMPRE







Mão que serve outra que sirva terá, de sempre ser assim ser não direita e esquerda suficiente razão que nos corte o afago à besta fossilizada. Deus das minhas misérias. Caminho de meia pedra, aresta sentida, a fazer do reflexo uníssono. O engano da meteorologia sobre esse dia afastado por azar. Incomodar o espelho com a esfera repetida da mão desengonçada e veloz. Meter o dia na palma da mão de um desgraçado qualquer ao engano, um qualquer. Encontramo-los, a esses, meio perdidos a meio corpo mergulhados na orientação dos teus cabelos, desfazendo a curva na pedra de um mundo. Incorrectas mãos; indicadores atados por um fio de palavras repetidas. Nuas em pelo, lidas à pele de um segundo passado. Amplificadoras mãos; à meeira do abismo de boca, esse descampado por urbanizar. Quase tudo hoje mesmo ao contrário, uns a menos metros cúbicos de terra impraticável.

Estacionar de marcha atrás no lugar pago ao sol, os olhos numa infância de insecto. Falas trapezoidais, azedas, invioláveis. A meia altura ali chegado, empurrando formas para a sombra de si mesmas e depois, as enfaixando com odores de eucalipto. Com mais força a mão na recepção à tinta, sobe e desce, desmascarando a perfeição das superfícies acabadas de fresco.

Não agora, mas será este o movimento repetido na aproximação ao acordo com o caseiro da morada sem cobertura: me agrada todo o tecido de céu que em cima lhe cai tão bem.

Comer com os olhos, perder de cabeça o dialecto achatado das águas. Perder todo o tempo, para poder ir mais depressa e chegar a horas a lado algum. Dar uma lição sobre noite, sobretudo, aos gatos vadios perdidos entre as âmbulas do tempo desmedido alastrando por aí. Indo de encontro aos relógios. Tolerar sua vaidade, ao outro lado deste lado. Falsa maré afundada num poço de manilhas. Mijava-me pelas pernas abaixo todas as noites, até há bem pouco tempo.

Nada na manga. Cavaletes de pau santo, dispersos pelo contorno de fora da praça visitada, cobertos por panos de cores distantes e indiferentes. Sobras de um número falhado por ilusionista disposto a isso por pouco. A figura de um anjo de fora, cunhada na bainha do sonho em posições diversas. Ouso me abrasar, de oníricos pesares de pechisbeque. Pois meu castigo é me esquecer de tudo por mil e uma noites seguidas de silêncio.

Um entra e sai. Sempre tantos sacos rotos pendurados na mão, tão pesados de nada. Ir de visita à tia solteirona, e voltar de mãos a abanar como antes de lá ter ido. Cães a ladrar aos que não estão bem a ver o que isto é. Apanhado sou, por olhos e meias de vidro. Sigo em frente. Finco os dedos no perfil da vítima que me interrompe o horizonte.

Do nada, acordava. Pago bilhete inteiro por dia incompleto. Não se mexem um milímetro, os bichos que me guardam de mim.

Puxar o ar, acelerando faísca ao peito. Disseste, e teu hálito vive ainda de encontro à calote de tais palavras as levando à derrocada morna, ao te perguntar como aqui viemos dar, que sabia eu já a resposta. Se foi já, qualquer amor ontem consentido. É fraco o que sobeja, um vestígio geométrico do que nos segurou enquanto figuras de um teatro de sombras postiças. Calculámos mal, a hipotenusa de nos desentendermos quanto à conta a rachar ao meio. Vamos ficando à réstia da habitação, para lá cá, no corredor atravancado pela paz podre das muitas páginas nunca decoradas às tantas de passagem. Tais livros, livros de sons inquinados, livros surdos de tanto se fazerem ouvir; vozes se queimando ao ar, se espalhando, batendo lá, certo quociente como consciente de algo pior ainda por vir. Matemático. Mandamos vir, como sempre o fizemos, e assentamos arraial no coração das coisas com esquina viva. A monotonia das raízes, cercando o tipo de letra usada, muito escolhida, à sorte de se poder pior experimentar a infecção fora do lugar à cautela. Devemos ter forte a declaração de todos os vícios, de todas essas incompatibilidades que nos estorvam a direcção errada.

O futuro é, por vezes querer contrário tal termo e impulso. Foi ou não, não vem ao caso, entendido o sombrio pulsar das cordas se ajustando ao gargalo do vasilhame. Corpo a menos que só isso. Em jeito, o soluço mais forte que se consiga expulsando para fora do quarto quanta inquietação domesticada. A bandeira do signo é uma cortina em branco. Minúsculas de palavras por dizer, engordando as maiúsculas de si mesmas. Falta já pouco para ser tarde de mais.

O intenso odor a falência, largado por entre gestos medíocres. Involuntária, a noção distanciada de que alma e espuma um momento de tempos, uma perigosa abundância de gosto, mais mar que solidão. A loucura de se antecipar o incerto. Tudo nos foge por acaso de aqui, aos lugares do propósito e da morte combinada a dois em tempos. Te fazes de esquecida, e nem isso agora serve é não. Separadores de betão, dispostos em espinha, e protecções acrílicas acomodadas aos dentes da nossa fadiga rilhada. Olha não.

Levar esta prosa a ponto de rebuçado, até que se lhe não distinga pinga de sangue ou sentido para quê. Faz pouco faz, dos lugares onde passámos à história de todos eles, desordem e multidão. Serena deriva. Havendo ainda palavras e pouca diferença entre nós nas idades, distância à origem, fogo e fundação, é levar pela mão um espantalho até bem a meio de um campo ocupado por milhafres sabidos. Mau feitio, é dar função aos instrumentos de frase batida, estudar a planta dos danos térreos, a distribuição das redes, às arrecuas olhando para os lados, resistir às mesmas palavras como iguais de sangue preso.

Culturas mistas. Aposto nisso o que não tenho. De graus e natureza tão diferente, vinda de aqueles ali no imediato vindouro. Amoralizar a constante, arrepiar caminho, lançar olhar de gente às coisas com princípio. Há uma arte nua nisto, fiando expressivas linhas de luz nas falas para o boneco, nas falhas geográficas se abrindo ao lado de um corpo com as mãos limpas. Está frio, passado. É de mestre, corromper os úteis escravos dos refinamentos. O problema, se o há, se põe assim mais do lado da utilidade da ordem a dar, do que da forma certa em fazê-lo. A tudo, um só golpe tropical.

Dar voz meridional aos porquês, quê do quê, a única prática digna distribuída ao mancebo de bibliotecas. Tais livros desnecessários, antepassados de uma noite estreita. Hesitar, vos digo tão só isto, entre estrelas à mostra e cacimbo que tudo prende à manhã que virá por trás das costas, são só meias pedras as mesmas histórias regulares. Esse comboio já partiu, a primeira pedra nele entrou. Rompantes. Disposições outrora mãos, de claridade e ocultação. Um oriente desdentado, a que se dá graças por não ser já ali já agora. Acabando assim tudo do pé para a mão. E insistimos nesta lástima, porquê? Pela puta da prosa? Para viver em união de facto com um incêndio? Se livre a palavra de um profundo sentido, inevitavelmente não outro que o tempo. Um eco caçador de juízos artificiais. A estranheza de se exibir o coração e, hesitar muita da vontade por terras de boca.

Deuses se pondo nos Deuses, esta a coragem de um animal de boas razões e cores súbitas. Meio abismo onde o vento aguentaste.


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