domingo, 18 de outubro de 2015

PÁSSARO





Determinar um centro em vão de janela. À vista, deste lado o sono há quanto tempo me capturou – pelo interior ou do avesso? Encostado ao vidro, preso por arames vindo do alto, a personagem se explica, não querendo dizer nada, por gestos transversais à paisagem para lá. Braço esquerdo, vincado, na direcção das nuvens o punho cerrado. Pés descalços tocam a superfície transparente com o vértice dos dedos, avançados combinam com pernas escancaradas. Braço direito, esticado, a mão escondida coincide com a esquadria recortada. Invisíveis. Janela de duas folhas. O ser, animado, ocupa uma. Por trás da outra, outra ainda a formar canto, encostada a certa estrutura tubular, interminável, travada por conjunto de treliças reluzentes. Polindo o sol chegado a nós. Um segundo passou por dentro. Outro fotograma demente ocupa o pensar que se não refez do passado recente. Ainda agora. Um céu branco absoluto é manchado por laje em consola, tramo da arquitectura nocturna, aresta viva, um corpo suspenso na fronteira do traço que o divide, sua cintura descai, dúctil, por pernas e pés bem assentes no abismo. De golpe. Sombra, reflexo – formações vítreas, costuras que interrompem infinitamente o plano, por onde este céu se vê céu alterado, nuvens dobradas. Luas idênticas. Multiplicando-se, poeticamente, o defeito em tudo. Os olhos reagem, quando agredidos pela falha na lâmina onde se encontram. Paisagem anulada, ponte partida a meio, limalha expulsa. Matrizes. Estrada intermédia, dos lados a mesma berma para onde são atirados braços desligados do conjunto. Pedra bujardada pela tinta secular. Minuciosamente. Caminhamos os dois ao fundo, atravessamos, quase nuvem que passa ao rés do fim. Elementos soldados entre si, descrevem uma curva abrupta. Receptáculos de dimensão não aferida, preenchidos com os destroços do que se idealiza, dispostos de modo rigorosamente imperfeito, cravados no terreno herdado de outros. Um fio de água tua – maré dita de boca – e outro meu, atados ao horizonte. Por ali edifícios abandonados. Uma árvore, digo uma árvore e outra vez se é caso para tanto. Articular, sofregamente, a ausência um do outro. Dispostos em montículos, átonos. Um do outro nos esquecemos devagar, arrumados fora de mão. Por semear. A pedra do coração, calada a tempo. Depois vou, rasante, dobrando a esquina formada pela TRAVESSA DE TODOS OS SANTOS e a RUA DOS DESENGANOS. Volto à gaiola, onde só aí sou pássaro.

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