António
José de Oliveira, gabinete de electrocardiograma. David Alexandre, gabinete
dois. Tosses, e calas o que te vai para aí. Circulam espessas as vozes,
algumas coagulando nos encontros de chão e parede. Maria Emílio Loureiro,
triagem 1. Conversação entre Governo e PSD, ou lá o que é, passa, na televisão
sem som. A jovem, exagerando a cor do sangue no rosto, tendo se sabe lá o quê, à
espera que a chamem lá dentro. Luís Castanheira, gabinete de
electrocardiograma. Podia guardar os nomes para mim, mas não os quero. Certos e
enganados, de viva voz, atirados para dentro da sala de espera. Onde os sentar,
cadeiras azuis. Devia ser quarta-feira, alguém disse. Paulo Alexandre Mocha,
gabinete 11. Familiar do senhor Jorge Amorim, à sala de médicos. Valentina do
Ó, gabinete 7. Paulo Jorge Santos, triagem 1. O casal de meia-idade,
meias-tintas apertando no tornozelo dificultando a progressão em tão pouco
espaço, se chega aos outros, nós, os que já cá estamos, se sentam na fiada de
cadeiras junto à parede onde estão pregados a Planta de Emergência e sinalética
avulsa. Não se liga a nada, nem a coisa nenhuma. Sim, vai à volta. O baraço escarlate
é desenrolado, se imagina, sobre os quadrados de chão branco sujo, se desfiando
aos poucos nas arestas vivas da construção. Toca o telefone. Investimento no
interior, em análise no noticiário. Mais tosses. A pondo no colo, desapertas a
mala de mão, a custo, e de lá dentro tiras uma maçã. Mordes. Vais levando a
respiração, sentindo a pata de um bicho de grande porte sobre o peito. Maria Mendes
Cardoso, gabinete de electrocardiograma. Quem te julgas? Pela parede, fora a
fora envidraçada, passa a vista para as ambulâncias estacionadas lá fora. Gritam
aí, na rua, à porta das Urgências. Descentralização de competências. Cordão de
ouro ao pescoço de um, casaco sobre o braço. Lá fora fresco, abafado cá dentro.
O sócio, contando pelos dedos a família de um número, e ele próprio, da Sorte
Grande em sair de aqui vivo. O sócio, de boné com a pala para trás e passado, o
número aí gravado, preto no branco. A velha, de pulseira amarela no pulso, mais
perto de cortar a meta, com a mão fechada sobre os olhos. Valentim de Sousa
Capeta, gabinete 12. Teresa Garrido, triagem 1. Disse. De lado, como estás e
eu, à mão da janela a toda altura, por onde nos entra a rua desabando sua intempérie.
É noite, sabemos já. Acompanhante de Joaquim Magro, gabinete 7. Te faço festa,
fixando olhar a ferragem cravada na tua orelha. Francisca Dias Ribeiro,
gabinete 4. Putos pobres, correndo desalmados por viela de lugar
subdesenvolvido, sintonizados no ecrã do tecto. Pode estar perto. Até aqui
acordo, outra manhã se não sabe, se acompanhada de frases soltas, se varrida pelas
mãos se afastando uma da outra, negando dizer adeus, outra coisa. Mário Rui
Raimundo, triagem 1. A borracha do calçado, chiando apagamento ao andar. Flores
vermelhas, apanhando da chuva e das luzes lançadas pelas viaturas de
emergência. Intermitentes pela divisão dentro, se estancando na parede ao alto.
Dez para as dez, não mais, riscadas no relógio. António Candeias, gabinete 8. Mukhtar
Ahmed, gabinete 3. Jéssica Perfeito, triagem 1. Pedimos a vossa atenção, por
favor, pedimos a todos os familiares de doentes quantos aqui estejam, que se
retirem para a sala de espera até à meia-noite. Mudança de turno. Turismo no
Algarve. Elisa Martins, gabinete 2. Dezoito dá seis, conta alguém por alto. Pai
e filho chegam. Pai, desviado por piratas do ar dele só, o olhar esgazeado
marcando todos os lugares ocupados ou não. Joaquim Pinto, triagem 1. Hélder
Correia, gabinete 7. Te manténs calada, eu ao lado. Beijo para quem chega, café
e cigarros para quem fica. Turismo em Portugal. Mário Raimundo, balcão 8,
cirurgia. Zuleica Gonçalves, gabinete 12. Margarida Borges, gabinete 8. António
Oliveira, gabinete 11. Se revolvem, as várias posições do desconforto, no
assento; fazem ranger a estrutura que os prende a todos nós. Colóquio dos
Simples. Cajueiro, romanzeira, gengibre, pimenta, figueira-do-inferno e o diabo
a sete, lavrados no vinil colado à parede. “O que hoje não sabemos, amanhã
saberemos”. Será tarde? Céus. Por dias. Drogas e coisas da Índia. Fácil nos
perder, no que nos acrescenta de rua. Primeiro debate entre Fernando Negrão e
António Costa. Luís Castanheira, gabinete de electrocardiograma. Te sobressaltas,
pondo rápida a mão sobre o peito. Não, descansa, estás ainda aqui inteira. Eu conto
de aqui. Sim…claro! Criança se distrai, suas pernas em balouço indo vindo
debaixo da cadeira, olhando o televisor onde não passa o noticiário. O velho de
muletas demora mais que esta frase a ser construída, a se sentar a meu lado. O velho de muletas, segurando o relógio de
pulso, deixando mão aí sobre o vidro do mostrador. O velho de muletas, depois
de entrar, em sono profundo, se irá convulsionar se engasgando de pesadelos, e
cair ao chão a tremer. Eu e outro homem por perto, descemos mão nele, e o
subimos para a cadeira. Agradece, sincero, por detrás da cortina de água frente
aos olhos. O velho de muletas, não espera por ser chamado; vem queimar as
horas, até ser dia outra vez; não tem ninguém com ele, nada na manga, nada nos
bolsos. Não pede nada, não pergunta nada. Só. Fica. O casal de meia-idade se
levanta; pousam os casacos sobre os ombros, sobem as calças na cintura. Fechos
abrem fecham. Carlos Constantino, triagem 1. Marcelino Santos, gabinete 13. Dez
e vinte, ainda noite. Debate quinzenal no Parlamento. Sou deste país, prometem.
A jovem, de cabelos pintados à cor verde, à cor cinza. Hilda Fartagh, gabinete
13. Arruma as coisas. Acompanhante de Domingos Ferreira, à sala de médicos.
Paulo dos Santos, gabinete 8. Vanda Condessa, gabinete 8. Se repetem. Leonor
Vergueiro, triagem 1. Manuel Encarnação, gabinete 3. Paulo Jorge dos Santos,
gabinete 8. Sandra Magro, gabinete 1. Esmeralda Caetano, gabinete 14. Parou a
chuva. Falam baixo. Passam pelas brasas. Uma calma que não é de aqui. Voltas à
mala, levantas de aí garrafa de água. Dividimos. Foi a filha que, antes de
sairmos à pressa de casa, se lembrou de a encher com água nova. Não está connosco,
dorme em casa de outros. A meio da tarde começou a chover. Nevão começou ontem
à tarde. Voltaste para me buscar. Marco Mateus, triagem 1. A criança tosse. É a
única criança desta hora, e ouve espirituais negros pela telefonia da mãe
enquanto espera por ser chamada. Dez e trinta. Tossem. Chega mais gente, famílias
de número inteiro. Jorge Coelho diz que são precisas medidas radicais. E chá. Recebo
mensagem no telefone, mãe perguntando por nós. Estamos bem, respondo. À espera.
Privados vão limpar florestas, até 15 de Março? Vão? Aldina Paula, gabinete 15.
Antónia Ferreira, gabinete 7. Onze e dez. Ilda Romão, gabinete 11. A sala se
encheu, de ruídos vindos do altifalante. Atravessando chuva como outra
qualquer. Riem, de cagaço. Estou? Dez segundos. A olhar para cima, a olhar para
nada. Família de António Ribeiro, gabinete 10. Com sotaque, se ouvem. Boa noite.
Vou chamar pelo nome do doente. Eu chamo. Maria Fernanda. Maria de Fátima. Maria
Elvira. Leopoldina da Conceição. Desculpe? Felicidade Maria. Joaquim António. Alfredo
João. Rosa Almeida, gabinete 14. Ricardo Cabral. Luís Felipe Candeias. Acompanhante
de Luís Silva, gabinete 4. Joaquim Manuel. Ricardina Maria. Domingos Ferro. José
Augusto Cardoso. Maria Isabel. Joana da Piedade. Quem chamei, pode-me
acompanhar. Proprietários são culpados da propagação dos incêndios? Portas automáticas,
de duas folhas. Onze e vinte cinco. Deverá haver endurecimento das penas para
incendiários? Perguntam por ti, e não sei já que responder. Falar. Dizer de
outra coisa, de nós mais à frente. Estamos doentes de viver. Madeira queimada
pode ser usada? Devia saber, e não. Sandra Marlu, gabinete 1. Esfregas o
calcanhar com uma mão, com a outra, falas ao telefone. Sim. Sim. Não. É. Amanhã
se verá, o que no dia de hoje não cabe mais. Onze e meia. Não podemos confiar
no que ela diz. Acompanhante de Joaquim Ribeiro, ao átrio de emergência. Água cortada
pela lâmina do rosto. Fora. Lá. Agressão. Sandra Maria Magno, gabinete 8. Laura
Pedroso, gabinete 2. Acham que estes panos cheiram a clorofórmio? Népia. Alguns.
Meia-noite vinte cinco. Maria Isabel Rosa, gabinete 12. Vê se ela consegue vir
cá fora. Um segundo. Porta que se fecha. Tossem. Bates no joelho com a mão,
duas três vezes. Abandonam o átrio exterior, de muletas, ao vento. Urgente. Reagindo,
se contam candeeiros pelo interior do estômago forrado a papel de noite. Fechas
os olhos. Dormes, ou finges. Suspiram. Bocejam. Gabinete 8. Gabinete 8. Dormem,
por certo, alguns dos que estão espalhados por duas três cadeiras, olho
fechado, olho aberto. Cães, farejando o que se não espera. Duas e vinte. Estamos
no bom caminho para errar. Aqui se falam, se não todas, exagerando, um punhado
de línguas diferentes. O velho de há pouco, agora em frente, pousadas que estão
a seus pés as muletas, para o caminho, encosta o corpo ao contorno curvo do
pilar de betão aparente, estremecendo de quando em quando. Não descansa. A maria-rapaz,
de olhos injectados de abandono e substâncias de distrair, deu quantas voltas à
imaginação, ocupando as posições possíveis, sentado, deitada, por lugares que
vão ficando aos poucos à disposição. Arranca em mudança repentina, acelerando
até à instalação sanitária, fazendo estrondo a fechar a porta, fazendo barulho
lá dentro, vindo voltando a gingar, capuz enfiado na cabeça. Duas e meia. Tossem.
O ar condicionado, nivelando a temperatura por baixo, fazendo respirar melhor. Outro.
O filho bastardo do profeta, se aliterando em certo afastamento, vai à rua, dança
por dentro da chuva, vem para dentro, experimenta os lugares vagos, e outras
coisas, se levanta, vai à instalação sanitária, vem devagar para junto de nós,
ao mesmo tempo que enfaixa os braços, direito esquerdo, com papel higiénico que
irá desenrolar, devagar, para o usar, misturado com desinfectante, na lavagem
dos pés. Se descalça. Exala o fedor difícil da refrega corpo-a-corpo com ele
mesmo. Se anima. Executa a dança guerreira, pacificadora do seu modo de estar. O
olhar que dele se perde, é tão só a linha fraca que o vai ligando à linha de
terra. Salta à corda que não tem. Desenha para nós a adivinha que é só dele. Três
pequenos pássaros pousam em si, livres de errar o espaço.
domingo, 4 de março de 2018
domingo, 25 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
PIONÉS
Os comboios não deviam andar
(para trás)
Allen
Halloween, Drunfos.
Ganhas
a taça. De um branco, tinto ou palhete. Sabes, assim sei eu, nunca é a cor o
que verdadeiramente importa. O vazio, sim. Lá no fundo, a te contar pelos dedos
certa voz, ficando, te lambuzando os ouvidos, aos poucos e caídos. Quase não
restam dentes para arrancar à gengiva da forma. Se massaja a carne com pecado
ou outro, se nisto se acredita. Sim, senhor. Nada de mais, pelo menos. O que sobejar,
a este nada, serve. Servirá a outro, que se aproveite. Cânticos de época
passada, entoados a só voz, datados por carbono admitido em passeios gastos na
sola da pedra. Esquadrias intrusas, mal dispostas em espinha. As vozes, algumas
luzes, se diminuem quanto baste, à atenção dada a outra coisa que não esta. A coice
dado, se não salva a serpente. Dá um olho por isto, enquanto volto não volto. Pássaros
escorregadios, brinquedos de lata dobrada, lavando de vermes o tronco às
árvores plantadas no espaço de uma limalha intrusa ao olhar. Espaço diluído,
percorrido e ultrapassado pela direita do silêncio. Sinetas espessas,
percutidas pelo lado de fora, as almas fecham as portas com estrondo, e se
desculpam com o mau jeito. Se dá corda ao gesto, um que seja, um que se veja. Tosses.
Sim, senhor. E agradeces tudo o que te é tirado. Te tocas, é hora. Não estás
certo. Nunca estás. És relógio habitado por falso cuco, amestrando fora de
horas os gonzos do lugar dando entrada. Dás lume a quem por perto passa e pede.
Nas mãos experimentando a têmpera, a ajustando ao hábito corrente. Mecanismo gago,
certo incerto picotado na esponja da pele, apontado a dedo ao longe nada lá. Nevoeiro
convulso. Foste enganado, sabes. Dizem que a noite foi a de ontem, e por lá
ainda não passámos sequer, não, trovador, não no meu calendário, nu de mulher e
seus dias do mês. Tanto melhor, em menos de nada. Me deu certa volta ao
estômago, vomitei os restos do jantar, ainda que me não lembre do que comi, ao
que joguei a mão. Vai-não-vai, foi. Pões a chaleira ao lume. Na bancada de
trabalho cortas o dedo e o gengibre, os reservas para daqui a pouco. Escuta. Eu
também. A locução distante de um verbo transitório. Coxeias ligeiramente, sim. Mas,
sobretudo calas. Mais à frente, na rua, dizes o que foi de ti. O horizonte é
lâmina dada à boca. Palavra gasta no fio circular da mó, lá, encostada ao corpo
do moinho inventando correntes para si. Mo apontas por conta do que gastámos à
tarde a que viemos a ser. Mansas águas mendigando olhares e actos irreflectidos
para seu meio de vazar. Um par de sapatos vermelhos, cravados de esferas
negras, abandonados sobre a caliça acomodada, no contentor de entulho
atravancando a viela onde nos apanhámos do chão. Visitámos hoje as ruínas de
casa, não nossa. Reforçámos a pedra, no rim de nosso querer traçado por vazios arquitectónicos
e caídas malhas estruturais. Inspirados, acertámos em implodir, um destes dias,
longe de paredes e outros perenes cacarecos. Focos de luz, embutidos em tecto
simples, nos rasgam caminho no vidro, até ao limite franco da perspectiva. Animal
de balão azul dobrado raso, à mão da criança perdida no túnel de rede suspenso,
a meia altura entre o chão do agora e o céu do nunca mais. O degrau do
silêncio, em passo confortável, decomposto em cobertor e focinho. Depois de
mim, sobes, lenta, a escada do acaso. Entre pisos paras, pedindo ao ar um nada
de oxigénio para ti e para os teus pulmões algo desencontrados da sua caixa
alta. O cão vai justo à corda da mão. A mosca intrusa, rouba um pouco de
atenção. A prosa se fixa, imperturbável. O velho por perto, andar abaixo, tremendo
o rosto em vários sentidos, pronunciando a beiça inferior para fora da sua
linha, dado por observado, se desconchavando, se libertando da matéria rigorosa
do corpo, acelerando o passo ao desaparecer. Roufenho bombo, mesclado no
tecido das gentes se passeando em um dia de nada fazer. Há, por aqui, fartura
e cachorro. Ócio de brincar, e de se fazer de ocupado. Olho de vidro. Paixão de
ventríloquo. Azar. Tudo deitar a perder, se afinal se deixar ver. De
onde isto vem, virá outra coisa. Melhor pior, outra coisa. Ladrar de lado, e a
esquina morder de viés à sina. Parar de rimar, imediatamente. Ir à porta, rodar
o puxador. Confirmar estar fechada, ir ao balcão pedir chave que sirva. Não,
não sou eu. Parte deste. Abres a caixa. Alinhas, no chão, as ferramentas que
nunca pões a uso, e inventas para elas o absurdo da necessidade particular. E problemas
de construção. Timorato servente no asilo da esperança, temo aquele que
surpreendo ao espelho. Coincidimos por nesga, em discordar sobre o mesmo tema
ou figura. Partilhamos a gaveta única dos riscadores diversos. Ao contorno do
corpo, damos um costume parecido. À vida, nos dá igual. A nada. Puxas água ao
autoclismo, rodas a chave, viras o rosto para debaixo da calçada a fingir, no
interior do edifício de servir. Buzinam. Desviam olhar, nós olhamos de igual. Podia
ser o carro do peixe, a biblioteca ambulante, o homem dos gelados, o amolador
de facas desusado de flautas de Pã, o padeiro. Vários são. E nenhum me serve. Procurar
por ti, revolvendo chaves no fundo da mala de viagem. Aqui estás deste lado,
hoje. Andas atrasado, pois areia é vírgula para frase andando por aí. Desces o
balde negro à fria noite circular, o atestas um nada de memórias e rostos
deformados. Acendes cigarro, antes e depois do coito. Não travas. Vais andando.
E suspiras. Usas e abusas do químico nos papéis que te dão à mão a rasurar, em se
cumprindo. Papéis espalhados à toa do gesto, pelo tampo em pedra, no interior
da divisão no piso térreo. Queres querer. E nada. A mão vai nua à corrente. Se equilibra
o corpo, em um dístico colado ao ar quente do sopro desencantado da tua boca
breve. Anda irrequieto um cavalo de madeira. Espera. Enquanto se transporta o
sentido sem fundo, da página anterior para o subsequente agora ainda, sem
movimentos estudados. Precipitação. Voltámos à noite. Pagas tu. Mandas vir. Esconjuras
o carácter circunflexo, desta falta de jeito em te fazer um agrado. Desprezas qualquer
manifestação de sinal contrário. Deu positivo, para o que deixaste entrar. Passa.
Eu ao menos tu, te dá igual. Sim, senhor. Quantas vezes fora o Mundo em
carreiros. Formigas descomprometidas com a albarda dos afazeres. Moedas batem,
umas nas outras, reproduzindo o ruído de um olhar atingido por imagens
disparadas de um só ponto. Contamos armas. Juramos servir, à justa, o propósito
firme de não dobrar a folha em mais de duas. Contamos estar por aqui um dia ou
dois, amanhã e depois. Outra vez. Voltar à vida que nos traz o dia por passar,
olhando por cima dos ombros para trás das costas. A luz se não abre, se acende.
À hora dela. Não ligues. Me podes responder, então. Se não tem isso que se
ligar ao que seja. A este àquele ponto à parte, chamas o agora. Já. Lá vai. E
estão quase todos aqui. Corremos o risco de Deus ligar e cá, por pouco, não
estarmos a nos explicar. Para, esquece. Lhe agradece outra vez, tal como o
farias com qualquer perfeito desconhecido. A combinação do entendimento, porta
abrir fechar abrir bater. Ir para dentro, perguntar. Ao de ti mesmo perguntar
se alguém viu ouviu alguma coisa de mais. Sim, senhor. Aí estás? E ainda,
legitimamente, será este perder o fio à meada do caminho desencontrado. Desconsegui,
sim. Ali está, ele ali a se descontinuar. Sangra? Veremos. Vá lá. Estou perto,
de nunca lá chegar. Estou certo. Pensava já que estava perdido, além de tudo. Indirecta,
esta luz implica no restolho das sombras precisas. Sombras reanimadas, à superfície
do transtorno. Vamos a ver, e é pouco. De esta hora de aqui, em diante, nunca
haverá tempo para nada. Sabemos. E nada se marca para nós, com a tinta de uma
data. Não. E nem há certa, a proporção
de ouro que nos caia bem e nos coloque em posição, determinada seja, no interior
da fotografia, nos beneficiando de alguma forma, e de que maneira. Fotografia olha
o boneco, atirada para debaixo do tapete, em se revelando, da herança dos
outros. Ámen. És o que se fixa de um grão em superfície qualquer. O que foi? Não
respondas, não agora. A tentação, insuspeitamente,
é toda ordem projectada à carne, com a precisão transgressora fora do risco. A
tentação, de igual para cada um, é a vianda dada à mão cheia à boca no focinho
da besta ideal, em dia incerto. Outro dia nos traz, o que ontem e antes de
ontem nos trouxe: o clarão lapidar da repetição, e a esperança retorcida sobre
o que haverá de novo na hora próxima.
Pela
rua fria, madrugando, intransigente, o velho esquizofrénico, forçando o ritual,
a se chegar à paragem onde, à mesma hora de sempre, espera o autocarro um fêmea
exemplar de idade meia. Lhe dar a mão, e a falha dos dentes num sorriso aberto,
dispersos pelo tempo de chegar seu transporte. Ela se abre de afecto, e o
velho, nessa faísca arrancada à existência a lhe fugir, vive pouco mais que a
maravilha do milagre caído a seus pés. O autocarro arranca, e de uma de suas
janelas se sacode ainda um adeus ao velho. Em desaparecendo a forma motora no
ponto final da rua, o velho se transfere de modos para as fachadas à volta, atravessando a passadeira, se equilibrando na bengala, se sentando no
degrau em pedra da mercearia, até à hora de abrir o comércio. Me atrasando, já
o vi aí entrar, demorando pouco a sair, com uma garrafa pela mão, já aberta, de
um leite achocolatado, e se voltar a sentar no mesmo degrau. E beber de um
trago só. O que ainda não sei é, se recuperará ele a tara.
domingo, 3 de dezembro de 2017
PONTO MORTO
Volto
o rio para trás
Das
costas lá vai
Disto
e só. Lá,
Águas
concisas, negras,
Por
lhe bater
A
noite. Sento.
Sinto.
Muito
Acorde
imperfeito,
Esgadanhado
Nessa
guitarra
Impressa
de memória,
Se
aproximando, e pouco
Me
beliscando
A
forma vista
Ao
perto.
Novos
loucos
No
lugar antigo,
Tomando
a praça
Construída,
se dobrando,
Se
alterando,
Enchendo
a caixa
Ressonante
De
eco suficiente.
Mastigam
a pastilha
Dos
dias, levam
O
casaco despido
Enrolado
no braço,
Passam
aos pares,
Olá!
Se lavando
Em
sorrisos,
Falando
em saudades
Tuas.
Entre
tanto
Aponto
àquele que,
Vindo
de ali
Ao
fundo,
Abre
porta
Acende
ponto
De
luz,
O
normal,
Não
fosse quem o fez,
Um
motor ter
De
propósito
Deixado
a trabalhar
No
meio da rua,
E
quem o esperava
Não
muito longe,
A
arrefecer.
Que
isto vos interesse,
Não.
Nem isto é trama
Que
se desenhe
Com
alguma calma
A
mais,
De
encontro
À
perna traçada,
Evitando
olhar de frente
As
circunferências
Do
azar, iluminadas
Pelos
candeeiros
Em
branco
Sobrando
à noite.
Nitidamente
se ouve
Discutir
sobre
Horários
não
Cumpridos
à risca;
Por
um fio,
Quem
nos avisa,
Aguenta
os cavalos
À
prosa, segura com a mão
Aquela
porta
Meia
aberta.
Lugares
de ofício
Com
gente dentro
Muito
fora ainda,
À
vista desta rua
Que
os estranha
E
deforma com uma
Longa
eucaristia
De
reflexos. Sentados
A
laborar para o boneco,
No
último dia
Inútil,
de mais
Uma
semana.
A
volta perfeita,
Embandeirada
em arco,
Dada
à pedra
Do
edifício
Em
boa
Altura.
Meio
arco e tanto
Tapado
por uma árvore;
Um
instante
Disto
apenas
Um
quarto
Visível,
Ao
passar por ali
À
frente
O
autocarro
Preso
à rede
Da
madrugada.
E
o motor,
Caralho,
E
o motor,
Se
não é ele
O
mesmo. Fico assim
Achar.
Um meio
Fio
de urina
Reflectindo
o sentido
Contrário
ao ponteiro
Das
horas.
O
vento despega
As
imagens ao tempo
De
serem réplicas de
Um
pouco já passado, já
Não
aqui
Me
apanhavas;
Ramos
de árvores
Desfigurando
Ao
segundo
O
barulho que
Me
rouba olhar.
Passas
a correr
E
há ainda vida
Nisso.
Meu igual,
Sobre
ti
Aterram
asas, frias
Coberturas
instáveis
Puxando
a linha
De
terra para dentro
Do
momento, para fora
Da
tua boca
Escorre
espesso
O
fumo do que há
Em
ser
A
manhã. Flâmula
Desarticulada,
Turvando
o entender
Aos
calceteiros
Do
caminho mais curto.
Superfícies
de contacto;
Máquinas
de sentido
Único,
desaparecem,
Silenciosas,
pela corete
Da
voz que as anima.
Em
caixas
De
luz, onde
Mal
se percebe
A
palavra
SAÍDA,
à cor principal
Do
olhar indo
De
branco, o que nunca
Com
nada
Se
casa, forçando
A
curva à pergunta
Que
se planta
Em
volta, disposta
A
tudo.
A
condição adversa,
Climatérica,
falo
Agora
a frio, é
A
pontada romba
Inclinada
pela unha
Me
arrancando ao sono
Deste
dia sem princípio.
Me
defendo
Com
um punhado de:
Notas
musicais,
Traçados
de condutas,
Enfiamentos
de condutores,
Juntas
betumadas a parafina.
Este
sistema forjado
À
demasia de um voo
De
curta distância. E
Vou
andando, se
Se
não importam.
Patas
felpudas, tesouradas
No
horizonte. Um olho,
Quem
o tem
É
soberano verbal,
Fechado
em
Espaço
aberto.
Liberto
o cão na caça
Aos
ouriços nocturnos, ele já
Não
está nem aí, nem cabe
De
contente, desaparecendo
Por
detrás da sombra
Das
árvores banhadas
Pelo
zinco da lua. O chamo,
Não
vem mais.
Rilho
os dentes, e
Durmo.
Se há sonho,
É
lá fora.
Espalhadores
de poliuretano
Superficial,
queimando
A
hora pulmonar, indo
E
vindo de longe
A
longe, dentro do mesmo
Quarto,
avivando
Os
veios à madeira
Do
chão,
O preparando para outro
Inquilino,
insensível
À
loucura da máquina
De
afagar e ao forte
Odor
químico
Que
permanecerá até
Que
se vá embora. Insensível
À
vida, vai
Vivendo.
Em bruto
Conjugar
da palavra
Solar.
À
guitarra, um solo
À
terra.
Virá
o dia, e alguém
Não
atenderá
Por
tanto
Entender.
Avisado
estás,
Apita
ou
Guarda
essa moeda
No
bolso;
Estás
convidado,
Para
um copo ou coisa
Que
o vale,
Mais
forte do que
Eu.
Coçar
o piolho, levantar
A
casa do estorvo
Em
que se encontra,
A
levando ao grito
No
interior da tela
Esticada.
Floresta
sintética,
Barbatana
dentada,
Dedo
em riste – fechar
À
chave
Estas
formas
Na
estante do sentido.
Arrastam
os pés
À
mesa de encontro
Aos
meus ombros;
Se
rompendo em vermelhos
Circulares,
me cantam
Aos
ouvidos um fraseado
De
fantasmas repetidos
No
ecrã das coisas
De
se apanhar
E
deixar.
Uma
palmada nas costas
Ao
tempo mesmo
De
um nome ser
Empunhado
por quem
É,
oferecendo
À
consignação
Do
meu parecer,
O
movimento de serras
De
corte
Fazendo
o giro
Algo
tarde,
Aos
crepúsculos interrompidos
Por
gargalhadas velozes.
Pitch
control,
Self
control,
Pest
control.
Do
estrangeiro que me sou,
Estas
palavras enxovalhando
O
contorno crítico
Da
urbe à memória
De
um qualquer
Arquitecto
agarrado
Ao
passado e á maravilha
Deste
aquele
JUST ONE FIX. Por ele,
Nada ficará
De
pé.
Se
envolve o segredo
Em
um pano estampado
De
brancas aves,
Artificiais
enteadas
Da
porção geométrica,
Alienígenas.
Param
as mãos
No
vermelho da superfície
Eléctrica,
para onde
Me
inclino, traduzindo
Sons
impossíveis, saídos
Do
núcleo fremente
Àquele
realejo abandonado
Sobre
a paisagem
Do
pensar.
Pássaros
pilotos,
Tocadores
de ar pesado
Ligando
os pontos
Pelas
costas
Ao Absurdo.
Máxima
incongruência,
Mínima
influência.
Dependência
total, delirando
De
infinito acabando
Por
dar em
Louco
melhor, melhor
Assim.
Jogos
de arcada,
Diálogos
e vendas
De
garagem.
Roupagem
que encolhe logo
No
lugar do pescoço, e um
Colar
de rebites
Directos
à pele, são
O
ornato de
Que
não
Prescindo.
Flores
enrugadas, travestidas
Em
forma
Singular,
sem modos
Pousadas
Na
sala de estar.
Uma
ampola de coisa
Nenhuma
jogada
Como
trunfo,
Ao
tapete
De
entrada
Na
habitação do personagem
Ditado
ao comum
Dos
mortais.
Me
caem todos
Os
parentes à lama,
Patinando.
Vão
Uma
última vez
À
terra,
Matar
saudades
Da
jardinagem artística.
Matar,
sim,
A
junta aos ladrilhos
Do
argumento atravessado
Na
garganta, disposto
Cintando
a mestra
Impossível
de aparelhar.
Em
plano inclinado
Se
destravando, descaindo,
A
viatura
Assombrada,
vai
Certa
hora
Em
ponto
Morto.
Como
que afectado
Por
trembolona ou
Banho
de zinco,
O
rosto fica
À
banda, em sentido
Desfigurado,
enquanto passam
Pelas
brasas
De
uma leitura.
Venha
o diabo
E
escolha,
Quem
de nós
Melhor
tinja, a
Acrílico
seu,
Pardo
pranto.
Sejamos
breves pois
Nos
cai em cima,
Não
tarda,
Novo
velho
Dia.
Luzes
de presença e
Trepadeiras
sentimentais,
Murcham,
escalando
Pelas
paredes. Alto
E
bom som,
O
que não puder
Nunca
ser dito.
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